A Maçonaria é comumente identificada como uma instituição monolítica e
unitária38.
Contudo, a pesquisadora Françoise Souza a compara a um longo tecido que,
se observado a distância, aparenta forma e cor homogênea, mas quando analisado de
perto, esse tecido maçônico acaba se revelando um verdadeiro emaranhado de
entrecruzamento de diferentes matizes que se mantêm unidas por pontos de interseção,
responsáveis por constituir o que se entende como identidade maçônica39
.
A Maçonaria
não se reconhece como uma sociedade religiosa, apesar disso, é necessário que os
candidatos e seus membros acreditem na existência do “Grande Arquiteto”40
.
Em
consenso, tem-se que essa instituição é um importante centro de difusão e circulação de
ideias41, uma vez que funcionam em caráter secreto e em ambientes propícios a
discussões dos mais variados assuntos.
A origem da Maçonaria é algo que ora ou outra entra em discussão. Não há uma
data precisa que determina a fundação dessa instituição, pois seus estudos originários
mesclam fatos reais e fatos lendários.
Mas grande parte de historiadores têm concordado
que as feições da Maçonaria moderna tiveram origem na Grã-Bretanha, primeiramente
em lojas escocesas, em seguida em lojas inglesas42
, tendo como marco a fundação em
1717 da Grande Loja de Londres.
Esse momento ficou caracterizado pelo abandono de
alguns aspectos ligados às velhas confrarias de pedreiros da época medieval43 e pelo
trabalho realizado pelo pastor presbiteriano James Anderson, responsável por redigir o
que seria entendido como a história, as obrigações e os regulamentos da antiga
Confraria compilados em códigos a serem seguidos como deveres pelos francomaçons
44
.
A partir de então, a instituição ganha um caráter mais filosófico e os
membros aceitos deveriam passar a seguir princípios como os de serem “homens bons e leais, nascidos livres, ter idade adulta e deveriam ter boa reputação”. Dessa forma, a
Maçonaria moderna agrega para si a função de desenvolver o aprimoramento moral e
intelectual de seus membros45, ganhando, então, uma ampla adesão que se difunde
rapidamente por todo o mundo.
Com o tempo e a expansão da Maçonaria, suas configurações foram se
mostrando ainda não acabadas e passaram a assumir múltiplas feições, de acordo com as
diferentes épocas e os diferentes lugares.
As formas assumidas pela Maçonaria são
construídas a partir de infinitos arranjos entre suas divisas, os seus preceitos e as suas
ressignificações, que lhes são impostas pelas necessidades e anseios de determinados
contextos históricos46
.
Porém isso é construído sem que se abandonassem os elementos
que eram entendidos como responsáveis pela identidade maçônica.
Esses elementos
encontram-se presentes em todas as lojas, independentes do rito, obediência ou
nacionalidade, como o fato de compartilharem um mesmo passado mítico, os mesmos
símbolos de reconhecimento e os mesmos toques e sinais empregados dentro e fora das
lojas.
O próprio fundamento teórico maçônico atua como elemento unificador da ordem,
na medida em que diferentes homens, ao propalarem preceitos comuns, mesmo que só
em sua forma, consideram-se agentes de uma mesma causa47
.
Os espaços em que a Maçonaria se desenvolvia normalmente não se misturavam
aos espaços de sociabilidade tradicionais das camadas populares, ainda que seus
membros tivessem a liberdade de participar e atuar, ao mesmo tempo, com as
associações entendidas como “profanas”.
O fato deste meio distinguir o espaço privado,
onde se poderia desenvolver as discussões das opiniões individuais, e o espaço público,
onde seria, por direito, o lugar das opiniões do Estado, acabou conquistando a própria
proteção do Estado, e assim muitos membros da nobreza sentiam-se à vontade para
fazer parte das Lojas com o intuito de compartilhar às Luzes48
.
Internamente, o local de
sociabilidade criado pela Maçonaria proporcionava a construção de uma igualdade entre
os seus membros49
Ainda que se questione essa igualdade, devido à existência de uma
hierarquia de saber dentro da loja, a Maçonaria se mostrou como um dos espaços de maior construção das ideias “cíveis” do século XIX50
.
Se comparada com as outras
formas associativas tradicionais, como as irmandades, a Maçonaria talvez fosse a mais
heterogênea em termos de sua composição social. Mas isso não exclui a forte marca
excludente que as lojas possuíam51
.
A fraternidade propalada pela Maçonaria dá-se, primeiramente, entre os irmãos
da ordem.
A fraternidade é entendida como auxílio mútuo e um modo de convívio entre
os irmãos, que corresponde à virtude mais associada à sociabilidade maçônica.
Percebesse, então, que a Maçonaria, a fraternidade, é a essência dessa instituição.
A filantropia
subjacente à noção de fraternidade tornou-se um instrumento de coesão entre os
maçons, bem como a base de sustentação da instituição no mundo profano. A filantropia
pode ser entendida como um mecanismo de divulgação e enaltecimento da ordem que
lhe garante um legitimado espaço de atuação.
Mais do que isso, ela cria redes de poder e
laços de clientelismo que garantem a influência da instituição e de seus membros em
importantes círculos do mundo profano52
.
Podemos ver em Barata que a Maçonaria foi
Uma instituição essencialmente filantrópica, filosófica e
progressista, tem como objetivo a pesquisa da verdade; o estudo da
moral universal, os das ciências e artes e o exercício da beneficência.
Tem por princípios a liberdade absoluta de consciência e a
solidariedade humana. Não exclui ninguém por suas crenças.
Tem por
divisa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade53.
Contudo, segundo Morel, na Maçonaria
A filantropia é distinta tanto da tradicional prática de caridade
cristã quanto da fraternidade revolucionária.
Tocada pelo espírito das
Luzes, a filantropia era o movimento dos que podiam ajudar (os
ativos) em direção aos percebidos como despossuídos (os passivos).
A
filantropia, também identificada como beneficência, era forma de
expansão da civilização ocidental e ao mesmo tempo, um meio eficaz
de criar redes de poder e laços de clientela54
.
Logo, o caráter de auxilio filantrópico existente dentro da Maçonaria acaba
construindo um espaço de sociabilidade que fortalece relações sociais circunscritas não
apenas em seu interior, mas também nas relações fora da ordem.
Com esse modo de
interação, os maçons poderiam auxiliar os que recebiam algo e, ao mesmo tempo,
fortaleciam o poder de quem os dava 55
.
Vê-se nesse sentido que os interesses e as necessidades específicos conduzem os
homens a criar modos de se agrupar, sejam pelos mais variados motivos - econômicos,
étnicos, religiosos ou outro qualquer.
Isso possibilita o desencadeamento de redes de
reciprocidades, expressas em formas sociais e delas se criam o que chamamos de
associações56
.
É através dessas interações que se enxerga a sociabilidade, que remete às
práticas sociais em relação a um grupo de indivíduos, que efetivamente participam delas
e analisa o papel em que cada um pode atuar57.
A sociabilidade é uma construção social
e realiza-se por meio da vida cultural e viabiliza a junção das formas associativas
concretamente existentes58
Me. Rafael de Souza Bertante
NOTAS
38 BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras: A Ação da Maçonaria Brasileira. Campinas: Editora
da Unicamp, 1999, p. 23 e 33.
39
SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. Organização, Preceito e Elementos da Cultura Maçônica:
Fundamentos para a introdução aos estudos da Maçonaria. In: SILVA, Michel (Org.). Maçonaria no
Brasil: História, política e sociabilidade. Jundiaí: Paco Editorial, 2015, p.38.
40 Ibdem
41 CASTRO, Giane de Souza. A Cruz e o Compasso: O conflito entre Igreja Católica e Maçonaria no
contexto da Reforma Católica Ultramontana em Juiz de Fora. Dissertação (Mestrado em Ciências da
Religião). UFJF, Juiz de Fora, 2008.p.06.
42 Castro, Giani. Op. cit. p.14
43 Barata. Op. cit. p29
44 Ibdem p. 12 e 13 45 Ibdem
46 Souza. op. cit. p36.
47 Id p.37.
48 KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: Uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de
Janeiro: EDUERJ: Contraponto, 2009. p.67.
49 Ibdem p.37 50 KOSELLECK. Op. cit.p.94
51 Id, p. 64, 67 e 68
52 SOUZA. op. cit. p. 26 a 2.
53 BARATA, Alexandre Mansur. op. cit. p.41.
54 MOREL, Marco. op. cit. p. 28. 55 MOREL, M. & SOUZA, F.J.O. O poder da Maçonaria: A História de uma Sociedade Secreta no
Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 44, 88.
56 ALCÂNTARA JÚNIOR, José. O conceito de sociabilidade em Georg Simmel. In.: Ciências Humanas em
Revista. São Luís. v. 3, n.2, p. 32-33, 2005.
57 QUIRÓS, Pilar González Bernaldo de. La « sociabilidad » y la historia política. In.: Nuevo Mundo.
2008, p.11.
58 ALCÂNTARA JÚNIOR, José. op. cit. p.37
Comentários
Postar um comentário