
Abordamos alguns aspectos da participação da Maçonaria e dos
maçons na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos.
Nessas duas nações inspiradoras da maior parte dos ideais que hoje fundamentam a cultura ocidental, assim como na Grã-Bretanha, nação onde se originou a instituição maçônica, o papel da Maçonaria foi muito importante historicamente.
Chatenet (2009), por exemplo, afirma que, entre George Washington e Bill Clinton, apenas dois presidentes americanos não pertenceram à Maçonaria: John Kennedy e George Bush.
Se olharmos para a história do Brasil, apesar da participação maçônica não ter sido tão preponderante como nos EUA, houve claras influências da Maçonaria no movimento republicano e abolicionista, assim como na direção que o Brasil tomou na Primeira República. (AZEVEDO, 1996; BARATA, 1999).
As ideias maçônicas estão presentes no Brasil desde o final do século XVIII (AZEVEDO, 1996, ACIOLY, 2004), havendo especulações sobre a presença dessas ideias na Inconfidência Mineira.
Entretanto, há certo acordo entre os historiadores de que a primeira Loja foi fundada em 1801.
Nas décadas seguintes, até 1860, aconteceu grande expansão das Lojas pelo Brasil, que se afiliaram às tradições maçônicas francesa, belga, portuguesa e inglesa (AZEVEDO, 1996, p. 182).
Apesar de ser impossível dissociar as atividades maçônicas das principais questões que motivaram transformações no Brasil durante o período imperial e no início da República, poucos estudiosos se aventuraram a um aprofundamento maior sobre a real participação da Maçonaria nos eventos políticos, econômicos, sociais e culturais.
Barata (1999) procurou mostrar a Maçonaria no Brasil – como também na sua origem europeia – como a principal divulgadora dos ideais do iluminismo e da ilustração, tendo seus membros se tornado alguns dos mais importantes defensores da abolição da escravidão, da necessidade de modernização para o país, tanto economicamente como na área da educação.
O esforço para retirar da Igreja Católica o predomínio sobre o sistema educacional brasileiro aparece como um dos principais investimentos maçônicos, fato que aconteceu nos principais estados do Brasil, como também mostra o artigo de Colussi (2000) quando aborda a participação da Maçonaria no Rio Grande do Sul.
Vieira (1999) centra seu foco na participação da Maçonaria na Questão Religiosa (ocorrida entre 1872 e 1875), conflito que envolveu a Maçonaria, a Igreja Católica e o Regime Imperial, e que contribuiu significativamente para o aumento do descrédito do governo monárquico de conduzir o Brasil ao desenvolvimento, à medida que tinha dificuldade de lidar com o poder religioso e impor sua autoridade (ROMANO, 1979).
Esse conflito acabou por beneficiar o movimento republicano e o movimento favorável à vinda de imigrantes para substituir a mão de obra escrava.
Para Vieira (1999) a Questão Religiosa e a atuação da Maçonaria – mesmo que os protestantes também tivessem dificuldade de aceitar a instituição maçônica – contribuíram para que o Protestantismo tivesse maior liberdade de atuação no Brasil, país que tinha na época o catolicismo como religião oficial.
Morel e Souza (2008), numa abordagem fundamentada historicamente, mas com o viés do enfoque e da linguagem jornalística, esforçam-se por apresentar um panorama geral da Maçonaria, desde seu surgimento na Grã-Bretanha, explicando seus mitos e sua condição de organização iniciática, até sua chegada e desenvolvimento no Brasil.
Procuram mostrar a participação dos maçons nos principais eventos da política brasileira no século XIX e contradizem a tese de Sérgio Buarque de Holanda de que a Maçonaria perdeu força no Brasil devido ao avanço do pensamento positivista.
O aspecto diferenciado da obra de Morel e Souza (2008) é ter avançado até o período contemporâneo, quando há um silêncio entre historiadores sobre a Maçonaria, analisando a transformação da Maçonaria em função das transformações culturais acontecidas no Brasil e no mundo. Azevedo (1996) procura fazer uma reflexão sobre esse silêncio que cercou os estudos sobre a Maçonaria a partir da década de 1940.
A autora afirma que mesmo os historiadores da Escola dos Annales pouco se interessaram pelo tema desde a fundação da revista (AZEVEDO, 1996, p. 186).
Outro fato que a autora destaca, é que no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução Francesa, realizado na Sorbonne em 1989, entre as mais de duzentas comunicações apresentadas nenhuma tratou da participação da Maçonaria (AZEVEDO, 1996, p. 188).
Algumas explicações têm sido apresentadas para justificar – segundo a autora – o silêncio a que os historiadores relegaram a Maçonaria.
A primeira delas é início da década de 1930” (AZEVEDO, 1996, p. 188), outro motivo seria a dificuldade de acesso às fontes maçônicas, sigilosas pela própria natureza da instituição, por fim, a opção por não pesquisar uma sociedade secreta que supostamente estuda ciências ocultas, tema pouco interessante para a abordagem mais racionalista contemporânea.
Na abordagem de Azevedo (1996), assim como em Morel e Souza (2008) e em reportagens das revistas História Viva e Superinteressante, aparece um aspecto que se mostra bastante relevante para a abordagem que procuramos dar sobre o tema: apesar dos elementos míticos e imaginários que cercam a Maçonaria ainda nos dias atuais, a instituição se tornou comum, isto é, deixou de ser uma vanguarda do pensamento político e cultural como foi nos tempos em que os ideais iluministas ainda necessitavam de um intenso esforço para se tornarem a base da sociedade ocidental.
Nos dias atuais a liberdade de pensamento é uma realidade no ocidente, a liberdade de iniciativa, a liberdade religiosa, a educação laica, a sociedade e os costumes secularizados já constituem o núcleo fundamental da cultura ocidental, tornando, nessa perspectiva, a Maçonaria uma instituição comum, com participação política e social naturalmente aceitas, mesmo que relativamente estigmatizada pelo fato de manter secretos seus rituais.
Essa atual posição da Maçonaria na sociedade aparece, por exemplo, no texto de Gwercman (2005) que, citando trecho da entrevista de H. Paul Jeffers, autor de um livro sobre a Maçonaria, escreve: “Atualmente, a maçonaria mais parece uma tentativa por parte de homens bem intencionados, na maioria brancos e velhos, de entender o sentido da vida.” (GWERCMAN, 2005, p. 59)
Essa afirmação parece ser um exagero, mas as indicações dos sites e das reportagens mostram que, realmente, o que intriga e incomoda os não maçons é o mistério e o imaginário, particularmente as construções negativas que já citamos: satanismo, complôs, etc.
Nas reportagens de revistas que selecionamos para analisar como a Maçonaria aparece atualmente nas publicações, à medida que os livros sobre a Maçonaria que citamos são poucos e provavelmente lidos por um restrito número de pessoas, emergem alguns traços interessantes que devem ser destacados.
Nefontaine (2007), por exemplo, aponta que o segredo ou discrição – como dizem os maçons – é uma condição para manter um dos pontos centrais da organização: a liberdade de pensamento e de busca do conhecimento.
Não falando sobre os rituais e“o impacto do mito da conspiração maçônico-judaica que perpassou o imaginário europeu desde o sobre as experiências internas que acontecem nos templos, os maçons reservam esse local para a vivência de momentos únicos, voltados para a reflexão e para o debate sobre todos os temas que estão em voga na sociedade, na política, na economia, na ciência e na espiritualidade.
Esse autor afirma: Mas qual a eficácia de ocultar informações? Na França, as lojas maçônicas foram apresentadas como laboratórios de ideias em que novos temas podiam ser explorados com total liberdade, o que contrastava com as tendências naturalmente conservadoras e imobilistas da sociedade.
Assim, o segredo permitiu a eclosão e a discussão livre de ideias novas e progressistas, que puderam concorrer para o estabelecimento de legislações sociais e éticas como o descanso remunerado, a liberação do aborto a partir de 1973, a contracepção e o planejamento familiar. (NEFONTAINE, 2007, p. 63)
Outro aspecto que aparece como relevante para a análise sobre a atuação da Maçonaria na atualidade refere-se à suposta proteção social que os maçons recebem da Organização.
Gwercman (2005) propõe que a Maçonaria, apesar de não estar mais tão ativa na busca pela influência direta no poder político, permanece atuando nos bastidores para conseguir favores ou alcançar metas que podem ser voltadas tanto para benefícios sociais (hospitais, creches, casas de correção, etc.) como para beneficiar os próprios irmãos.
Nesse sentido o autor lança algumas indagações: Muitos maçons brasileiros adoram listar pessoas importantes que integram a ordem.
São empresários, policiais de alta patente, políticos, juízes. Todos unidos pelo compromisso de ajuda mútua – irmão que é irmão nunca deixa o outro na mão.
Atualmente, por exemplo, circula entre os maçons paulistas a história de um julgamento recente, parte de um escândalo nacional, que caminhava para a condenação do réu e mudou de rumo após telefonemas entre altos membros do tribunal.
Advogados, juízes e o acusado eram iniciados na ordem.
Casos assim são frequentemente ouvidos, ainda que na maioria das vezes em tom de boato.
E preocupam muita gente.
Por mais que os integrantes da maçonaria sejam gente da mais fina estirpe e dotados das melhores intenções, será que têm condições de abandonar os valores e pactos da fraternidade na hora de exercer cargos na sociedade pública? (GWERCMAN, 2005, p. 59)
Esse é um problema que, com certeza, não obterá resposta. Todas as pessoas que ocupam cargos públicos – sejam maçons ou não – podem cometer o mesmo tipo de ato de improbidade, beneficiando parentes, amigos, membros da mesma religião, etc.
Não há nenhuma garantia de honestidade quando esses fatores estão em jogo, sendo os casos de honestidade a exceção à regra.
Então, esse não é um problema dos maçons, mas – como já afirmamos – do imaginário social que leva grande parte das pessoas a enxergar a Maçonaria sob a ótica que a tem marcado desde o início de suas atividades,
Referências
ACIOLY, Augusto César. As luzes da Maçonaria sobre Pernambuco. Recife: UFPE, ANPUH, Anais, Outubro/2004. AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Maçonaria: história e historiografia. São Paulo: Revista USP (32), Dezembro/Fevereiro, 1996/1997. BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A ação da Maçonaria brasileira (1870-1910). Campinas: UNICAMP, 1999. BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. BENHAMOU, Philippe. Uma fabulosa indústria de teorias. São Paulo: Ed. Duetto, 2009. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 28 e 29 BENHAMOU, Philippe. A lenda do complô maçônico. São Paulo: Ed. Duetto, 2009a. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 30 a 33. Maçonaria na modernidade tardia: mitos e imaginários André Luiz Caes P á g i n a | 225 Revista Sapiência: Sociedade, Saberes e Práticas Educacionais V.6, Dossiê: Religiões e Religiosidades na Modernidade Tardia, p. 202-226, Dez., 2017. ISSN 2238-3565 CAES, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas estratégias de reestruturação da Igreja (1890-1934). Campinas/Unicamp: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1995. Dissertação de Mestrado. CHATENET, Madeleine du. A irmandade faz a América. São Paulo: Ed. Duetto, 2009. Revista História Viva nº 71, Ano VI. p. 37 a 41. COLUSSI, Eliane Lucia. A Maçonaria gaúcha e a defesa do ensino laico no período da República Velha. Pelotas: Universidade Federal/ASPHE/FAE, História da Educação, nº 7, abril 2000, p. 59 a 73. CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2010. DARNTON, Robert. Boemia literária e Revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Cia. das Letras, 1987. ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2007. ELIADE, Mircea. Ocultismo, bruxaria e correntes culturais: ensaios em religiões comparadas. Belo Horizonte: Interlivros, 1979. FRANCO JR, Hilário. As Cruzadas. 6ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991. GWERCMAN, Sérgio. A Ordem. São Paulo: Editora Abril, 2005. Revista Superinteressante nº 217, set/2005. p. 50 a 59. LOPES, Reinaldo. Guerreiros de Cristo. São Paulo: Editora Abril, 2006. Revista Superinteressante nº 223, fev/2006. p. 48 a 57. MOREL, Marco e SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. NEFONTAINE, Luc. Uma fortaleza inviolável. São Paulo: Ed. Duetto, 2007. Revista História Viva nº 47, Ano IV. p. 60 a 63 PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. PINHEIRO, Paulo Sérgio. O Brasil republicano, Sociedade e Instituição (1889-1930) Coleção: História Geral da Civilização Brasileira. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, vol.02. ROMANO, Roberto. Brasil: Igreja contra Estado. São Paulo: Kairós, 1979. VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. 2ª Ed. Brasília: Editora UNB, 1999.
Sites
https://padrepauloricardo.org/episodios/um-catolico-pode-ser-macom http://intellectus-site.com/site2/artigos/maconaria-braco-direito-do-diabo.htm http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_lxiii_enc_18840420_humanum-genus.htm
Sobre o autor Andre Luiz Caes
Possui doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2002). Atualmente é professor da Universidade Estadual de Goiás. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e Medieval, História do Brasil e História das Religiões, atuando principalmente nos seguintes temas: igreja católica, identidade religiosa, doutrina, relações entre religião e sociedade, relações entre as religiosidades ocidental e orienta
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