Análise do filme “A Sociedade dos Poetas Mortos” a partir da Teoria de Bion
9 de abril de 2009
O filme “Sociedade dos Poetas Mortos” fala sobre a relação entre um professor e seus alunos na década de 50, onde o modo de vida tradicional era muito valorizado. A própria escola preparatória onde se passa a história é uma instituição muito tradicional nos EUA, que é orientado por valores rígidos. Lá, só estudam garotos, que assim que ingressam já são considerados privilegiados, pois os ex-alunos são pessoas que obtiveram notável sucesso na sociedade da época. Porém, muitos deles estão lá por pressão dos pais, que planejam o melhor futuro para seus filhos.
O Professor John Keating é um ex-aluno da escola que começa a lecionar Inglês para os garotos. Seu método de ensino não é nada ortodoxo como o restante dos docentes. Através de suas aulas, os alunos começam a se reunir noturnamente em uma caverna para ler poesias e extravasar suas emoções, formando então a Sociedade dos poetas mortos. Nessas reuniões, os garotos se descobrem capazes de agir e pensar a partir de seus próprios ideais, tendo força e coragem para sustentá-los, mesmo que para isso seja necessário ir contra os valores tradicionais da época.
Todas as mudanças e descobertas feitas pelos garotos por meio dessas reuniões serão analisadas nesse trabalho através da teoria de Bion.
Wilfred Ruprecht Bion nasceu na Índia e foi estudar na Inglaterra quando tinha 8 anos. Após servir na 1ª Guerra Mundial, estudou História no Queens College, em Oxford, e depois fez Medicina na University College, em Londres. Iniciou seu interesse pela Psicanálise e tornou-se trainee de John Rickman e, mais tarde, de Melanie Klein. Durante os anos 40, seu estudo estava totalmente voltado para os processos grupais, depois, abandonou esses estudos e dedicou-se à prática psicanalítica. Dessa forma, alcançou a posição de diretor do London Clinic of Psycho-Analysis (1956 a 1962). Em 1968 trabalhou em Los Angeles, retornando à Inglaterra dois meses antes de sua morte, que ocorreu em 1979.
Analisando as reuniões realizadas pelos garotos a partir da teoria de Bion, notamos que existem dois níveis de funcionamento psíquico, inter-relacionados entre si: o nível consciente e o nível inconsciente. Em seu trabalho, Lima (1999), descreve esses níveis da seguinte maneira:
– Nível inconsciente: emocional, regido pelo princípio de prazer, caracterizado pelo uso do princípio primário (deslocamento, condensação e deflexão), orientado para evitar o desprazer.
Sendo assim podemos dizer que a atitude de ir se encontrar às escondidas para ler poesias era algo que os garotos faziam para que tivessem contato com seus sentimentos.
O fato de ler poesias faz parte do nível consciente, e o fato de ter prazer em entrar em contato com suas emoções faz parte do nível inconsciente.
Somente pelo fato de estarem em um grupo, faz com que as primeiras experiências de fusão, discriminação, encontro, separação, individualização e massificação sejam re-atualizadas. A partir dessa re-atualização individual, se constrói a mentalidade grupal, segundo Lima (1999).
Bion diz que todo grupo simboliza para a pessoa a pertinência, a família primal, sendo então um continente onde surgem reações regressivas de busca e perda de afeto. Os sentimentos mais arcaicos são despertados, vivendo então o grupo os supostos básicos, que são: dependência, luta – fuga, e acasalamento. Nunca pode haver mais de um em andamento. Quando um suposto básico predomina, os outros ficam depositados no que Bion chamou de “aparato proto-mental”, onde o somático e o psíquico são indiferenciados. Dessa maneira, podemos observar que durante as reuniões, os garotos entravam em contato com sentimentos e emoções, a por meio da experiência de troca, havia uma reorganização de seus pensamentos e interesses individuais.
Os supostos básicos são descritos da seguinte forma, segundo Lima (1999):
– Dependência: o grupo é a possibilidade da renovação e muito mais que isso. O grupo é objeto de desejo, a representação do seio bom (Melanie Klein), que sustenta todas as fantasias dos participantes. È um espaço de salvação, e o líder é o Messias que vai levar o grupo a satisfação plena. Sente-se que tudo pode ser realizado, não há medo nem ameaça nenhuma. É um momento de projeção de esperança e satisfação.
– Luta – Fuga: crença inconsciente de que a solução dos seus problemas se dará na medida em que consigam evitar o perigo certo proveniente de um objeto persecutório – interno ou externo ao grupo -, o qual deverão enfrentar, fugindo ou atacando, liderados por seu terapeuta ou orientador. Qualquer investimento da libido no grupo, se sentindo como mal correspondido, desperta na pessoa a ansiedade de perda e/ou fantasias de perseguição. A solução desejada se apresenta não como uma conquista, mas como a evitação clara da dor, por meio de uma ansiedade baseada em temores paranóides referentes a fantasia do objeto mau. É comum que ocorra esse suposto básico após uma situação de total pertinência como no caso de dependência, onde a angústia de ser possuído por alguém mal desencadeia temores de destruição.
– Acasalamento: crença de que o objeto salvador ainda deverá ser criado, e que esta atividade será executada por membros voluntários do grupo, que facilitarão o descanso dos demais, ou então pelo próprio coordenador. A ênfase aqui não é sobre quem trará a salvação, e sim que a solução desejada de fato virá a qualquer momento. Haverá então uma dupla (de mesmo sexo ou sexo diferente), que produzirá o “grand finale” por meio de uma cópula fecunda, sendo então o restante do grupo os herdeiros e beneficiários do produto final. O desejo se veste de esperança, e o objeto desejado tem características messiânicas. A ansiedade subjacente aparece como a contrapartida do otimismo e se remete a: temor da morte do bebe Messias, temor de mal formação do feto, ansiedade desesperançada frente a pulsão de morte.
Concluímos que, relativo aos pressupostos básicos de Bion, a Sociedade dos poetas mortos segue a definição de luta – fuga descrita acima, uma vez que os garotos acreditam inconscientemente que a solução de seus problemas se dará a partir do momento em que consigam enfrentar seu objeto persecutório (pais, valores tradicionais), enfrentando-os ou fugindo deles. Para que isso aconteça, são liderados pelo Professor Keating.
No filme, o aluno Neil Perry apresenta certa incapacidade em lidar com o fato de que gostaria de seguir uma carreira artística e seus pais serem contra essa idéia, o que o leva a cometer suicídio. Podemos analisar esse personagem a partir da Teoria do Pensamento de Bion, que tem como ponto de partida a frustração das necessidades básicas do lactante.
Na Teoria do Pensamento, o essencial é a maior ou menor capacidade do ego poder tolerar o ódio resultante das frustrações, e observar se haverá fuga ou modificação dessa frustração.
Em caso de realização positiva, o objeto necessitado é presente e atende as necessidades do lactante. Na realização negativa o lactante não encontra o objeto disponível para sua satisfação. Essa ausência é vivenciada como a presença de um objeto ausente e mau dentro dele, uma vez que se o lactante o necessita e não o tem, esse objeto só pode lhe causar sofrimento (mau).
A capacidade do ego tolerar frustrações pode ser suficiente ou insuficiente. Caso seja suficiente, a experiência de ausência do objeto torna-se um elemento do pensamento, o que leva ao desenvolvimento de um aparelho psíquico. Caso a capacidade seja insuficiente, o objeto mau deve ser expulso através de identificações projetivas.
Essa experiência é indispensável para a vida humana, e segue dois modelos de desenvolvimento:
1. se o ódio da frustração não for excessivo à capacidade do ego suportá-lo, o resultado será uma sadia formação do pensamento, através da função α, a qual integra as sensações e emoções. A função α é a primeira existente no aparelho psíquico e é responsável por transformar as sensações e primeiras experiências emocionais em elementos α, que são utilizados pela mente na formação dos sonhos, recordações e simbolismos, além de formarem a “barreira de contato”, que é a separação entre consciente e inconsciente.
2. se o ódio da frustração for excessivo, os elementos do pensamento se formam, chamados elementos β. Esses elementos devem ser imediatamente aliviados. Eles formam um conjunto denominado “tela β”, a qual não possibilita uma diferenciação entre consciente e inconsciente, nem elaboração de sonhos.
Se analisarmos o personagem Neil a partir desses conceitos descritos acima, podemos dizer que o fato de seus pais não aprovarem que ele seguisse carreira artística fez com que desenvolvesse um ódio da frustração excessivo à capacidade do ego suportá-lo, desenvolvendo então elementos de pensamento β, porém, esses elementos não foram aliviados, o que resultou em uma fuga (suicídio).
Para concluir, observamos que no filme, o Professor John Keating tinha como objetivo fazer com que os garotos despertassem para uma nova relação para com seus pensamentos. O Professor não queria que os garotos continuassem a viver dentro daquele modelo imposto pelos seus pais e valores da sociedade da época, sendo que internamente eram contra. No final do filme, os garotos se mostram agradecidos ao esforço do Professor, e fica claro que eles conseguiram se livrar da imposição que lhes era a única verdade e caminho proposto. Sobre esse desenvolvimento do pensamento, Bion diz que a essência da formação dos pensamentos úteis depende não só da capacidade de tolerância às frustrações, como também da capacidade em suportar as depressões, ou seja, vai depender basicamente do modo da passagem da posição esquizo-paranóide para a posição depressiva. Acredito que os alunos que conseguiram fazer essa passagem de maneira sadia, atingiram o objetivo inicial do Professor Keating.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LIMA, Noeliza. Bion. Disponível em: http://br.geocities.com/ngroupsy/Processo_Bion.htm. Acesso em: 16 mar. 2009.
s.a. Teoria do Pensamento de Bion. Disponível em: http://www.contemporaneo.org.br/galeria/apresentacao/apre90.pps. Acesso em: 16 mar 2009.
Comentários
Postar um comentário