A lenda dos Quatro Coroados (Ars Quatuor Coronatorum)


A lenda dos Quatro Coroados (Ars Quatuor Coronatorum)

A lenda dos Quatro Coroados ou Quatro Mártires possui várias versões e está muito afecta à Maçonaria. Os quatro coroados foram escolhidos padroeiros pelos Maçons Operativos ingleses e são personagens que constam em vários dos Antigos Documentos da Maçonaria Operativa na Inglaterra, a exemplo do Poema Régius.

Desde os Colégios Romanos, passando pelos Mestres Comacinos, ambos ligados à arte da construção, a memória desses Santos já era venerada. O martírio dos mesmos aparece em forma de narração em vários documentos antigos pertencentes à Maçonaria Operativa.

Para os “Steinmetzen” [2] da Alemanha, a lenda dos “Quatuor Coronati” era a sua lenda principal. A lenda é mencionada na Constituição alemã de 1459, assim como, nas Ordenações de Torgau (1462).

Outros textos antigos e as menções à Bíblia

Alec Mellor no seu “Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons” vem acrescentar importantes informações sobre a Bíblia e os documentos antigos:

“O mais antigo texto conhecido que menciona expressamente o Livro da Lei Santa como uma das três grandes Luzes é de 1760, mas é evidente que não foi uma inovação, pois, na época da Franco-Maçonaria operativa, uma obrigação puramente leiga seria simplesmente inconcebível. De acordo com os costumes medievais é, contudo, possível que o juramento fosse restado sobre relíquias, mas o seu carácter religioso permanecia o mesmo. O Grand Lodge Manuscript n01 (Manuscrito n° 1 da Grande Loja) de 1583 menciona a Bíblia como um objecto essencial do mobiliário de uma loja. Bernard Jones, no seu Freemason’s Guide and Compendium (Guia e Compêndio do Franco-Maçom) cita o Grand Lodge Manuscript n0 2 (Manuscrito n° 2 da Grande Loja), por volta de 1650, o Harleian Manuscript n0 2054 (1650 a 1690), o Buchanan Manuscript (mesma época) no mesmo sentido. O Colne Manuscript n01 (1685 ) exprime-se assim para descrever a maneira de receber a obrigação de um candidato: ‘Um dos mais antigos segurando a Bíblia, deverá estendê-la ao candidato, de forma que aquele ou aqueles que devem ser feitos maçons possam colocar e deixar estendida a sua mão direita sobre ela. A fórmula do juramento será lida em seguida.’ O mesmo texto 1menciona que desde aquela época, vigorava o costume de selar o juramento com os lábios sobre o Livro da Lei Sagrada. Pode-se citar ainda o Sloane Manuscript n0 3329 (por volta de 1700)”.

(Mellor, pág. 168, 1989)

Entre o imaginário e o fidedigno

No decorrer das pesquisas e das leituras realizadas, deparei-me com um trecho do livro “Maçonaria História e Filosofia” de autoria do Irmão Ambrósio Peters, onde ele faz alguns comentários com respeito aos Antigos Manuscritos (Old Charges) e que vem acrescentar mais informações ao conteúdo dos mesmos, além de evidenciar o que poderíamos classificar como uma mistura de tradições e lendas antigas com passagens da Bíblia. Na sequência, o trecho transcrito na íntegra:

“Porque esses documentos (Antigos Deveres) são tão importantes para as tradições maçónicas?

Certamente devido ao seu conteúdo, um misto de religião, história fantasiosa e regulamento. Obedecem a um padrão geral, embora nem todos contenham todo os itens que a seguir mencionaremos.

Segundo o escritor Wallace McLeod começam sempre com uma oração, invocando a Santíssima Trindade, a Virgem Maria e o Santo Padroeiro da guilda, seguindo-se um rápido resumo das finalidades e do conteúdo do documento.

Este preâmbulo continua com uma explanação sobre Ciências ou Artes Liberais e a tradicional história fantástica da Geometria, ou da Maçonaria, ou da Arquitectura, o que tomava cerca da metade de todo o texto.

A história está quase sempre baseada em passagens bíblicas. (Grifo meu!) Muito resumidamente ela inicia afirmando que a Arte de Construir foi inventada por Jabal antes do dilúvio de Noé e que a fundição de metais foi descoberta pelo seu irmão Tubal-Caim. Eles souberam que Deus iria destruir a Terra por causa dos pecados e, para sua preservação, escreveram os fundamentos da Arte em duas estelas (colunas), que foram encontradas depois do dilúvio.

A história continua falando de Nemrod, da Torre de Babel e de Abraão que chegou a Egipto e lá ensinou a Arte e as ciências, tendo tido um famoso aluno chamado Euclides. Segue dizendo que o Rei Davi amava muito os maçons e como o Rei Salomão construiu o templo com a colaboração do Rei Hiram e do seu mestre construtor. Diz depois que um homem que trabalhou na construção do templo do Rei Salomão chegou à França e ensinou a Arte a Carlos Martel e que, logo a seguir, a Maçonaria chegou à Inglaterra. Finalmente, cerca do ano 930 o Príncipe Edwin convocou a Grande Assembleia de Maçons, em York, estabelecendo um regulamento, que foi retransmitido até nós”.

Comentários

Ainda que o autor do texto tenha tecido comentários, mesmo para aquele leitor que possua um conhecimento mediano de história, salta aos olhos, mesmo numa primeira leitura do último parágrafo duas incoerências: a primeira no que diz respeito às datas, já que aproxima factos que estão bastante distantes no tempo, e a segunda na mistura de diferentes tradições que também ficaria muito difícil juntá-las do ponto de vista da História.

As contradições estão presentes como pudemos perceber. Evidente também que vai pesar aí o fato de que na época da redação desses documentos não havia fontes históricas seguras, sejam bibliográficas, ou métodos da História como ciência, pois, ainda não existiam.

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