A Bíblia e a lenda de Hiram
Depois de havermos visto várias referências aos antigos manuscritos, os quais muitas revelações trouxeram aos estudiosos, ainda que, o tema verse sobre as lendas maçónicas de um passado distante da história da Maçonaria e que envolve uma certa ingenuidade daqueles primeiros Maçons, para uma organização que esteve à sombra da Igreja por muito tempo, as conotações bíblicas detectadas numa maioria das lendas que estavam entranhadas no imaginário dos franco-maçons são perfeitamente justificáveis, mas, não poderíamos deixar de mencionar a Lenda de Hiram, que não é tão antiga assim, que é detentora daquela que deve ser a nossa mais profunda simbologia, que possui também as suas contradições, que está sujeita ao modo de interpretação de cada um conforme as suas convicções religiosas e morais, enfim, essa lenda também tem as suas raízes bíblicas, mas…
Antes de prosseguirmos, seria interessante relermos a definição de lenda que constou anteriormente no texto em negrito.
Se fizermos a pergunta: foi Hiram Abiff o construtor do Templo de Salomão? O Ritual do 3° Grau não deixa dúvidas, portanto, a resposta é sim. E para aquele que resolva se aprofundar mais no assunto, de antemão é bom saber que existem somente duas referências, sendo que, uma é a Bíblia e a outra um documento medieval, o Manuscrito Cooke (1410 ou 1420). Vejamos o seguinte trecho que consta no Manuscrito citado e que foi extraído da obra intitulada “El Templo de Salomón y las Leyendas Masónicas ”:
“Y en la construcción del Templo, en tiempos de Salomón, como se dice en la Biblia, en el tercer Libro Regum in Tercio Regam, capítulo quinto, Salomón tenía ochenta mil constructores a su servicio. Y el hijo de Tiro era su jefe. Y en otras crónicas y en otros libros de masonería se dice que Salomón les confirmó el encargo que David, su padre, había dado a los masones”.
Na sequência, o autor do livro faz os seguintes comentários:
“Tampoco se menciona en ninguno de elllos su asesinato, y en realidad, como hemos visto, ni el nombre de Hiram es mencionado, tan sólo hace una referencia, quedando así su identidad distorsionada. Estas confusiones en los redactores de las Constituciones de la masonería operativa darán lugar a que los autores de documentos posteriores mantengan las mismas confusiones”.
(Sánchez-Casado, págs. 85-86, 2016)
Também, numa das recompilações utilizadas pelo Irmão Girardi para compor o verbete “Bíblia: visão maçónica ”, podemos ler o seguinte:
“Existe, contudo um folclore maçónico que coloca por vezes em cena personagens bíblicos num contexto que a Bíblia não apresenta. O caso típico é a Lenda de Hiram. A Maçonaria jamais pretendeu, quanto a isso, completar a Revelação à maneira dos evangelistas apócrifos, nem mesmo respeitar a verdade histórica ou arqueológica. Neste caso particular, é exacto dizer que ela recorre ao simbolismo. Ela o declara, aliás, lealmente. Nas primeiras palavras com as quais o Grão-Mestre abre a cerimónia de consagração de uma nova loja, ele fala dos ‘personagens lendários de Salomão, Hiram, etc. ’. Estes personagens não são lendários historicamente, mas tal como o ritual os apresenta”.
(Girardi, pág. 62, 2008)
Comentários finais:
A Bíblia na Maçonaria é o Livro da Lei Sagrada e o seu lugar na Loja é sobre o Altar dos Juramentos onde juntamente com o Esquadro e o Compasso, constituem as Três Grandes Luzes.
Num país onde o Cristianismo não seja predominante, o Livro Sagrado é o da religião majoritária deste.
Pudemos constatar durante o desenvolvimento do tema que a Bíblia está presente há muito tempo na Maçonaria, tendo sido muito utilizada durante o período Operativo como uma fonte riquíssima de lendas, influenciando e ilustrando os ensinamentos maçónicos.
Prevalece o imaginário bíblico-cristão, por isso, abrangendo inúmeros personagens do Velho Testamento (o que fez alguns levarem adiante a ideia de que a Maçonaria tem uma origem judaica, já que a maioria desses personagens são judeus e o Velho Testamento da Bíblia cristã é quase a totalidade da Torá dos judeus) e em determinadas narrativas a história e a lenda coexistem simplesmente. As lendas mais difundidas costumavam girar em torno de Enoc, Osíris, a Escada de Jacó, Nimrod , a Torre de Babel, o Templo de Salomão, Euclides, Lamec, Noé, além de outros temas, é claro.
Após a invenção da imprensa por Johannes Gutenberg no século XV, houve uma significativa aceleração na produção de livros. A tradução da Bíblia do latim para o alemão por Martinho Lutero, deflagrou a partir do século XVI outras traduções e impressões noutras línguas, entre elas o inglês e o francês.
Podemos deduzir, a partir de todo o exposto até aqui, que a Bíblia na Maçonaria, antes do século XVI, em latim era restrita a poucos, tinha muito da sua influência baseada nas lendas que dali emanavam e que eram ensinadas pelos monges no contexto aquele das confrarias dos pedreiros. Estas narrações sofriam alterações e até se misturavam com outras, as quais eram provenientes das religiões de mistérios da antiguidade, pendendo ao final para o exagero e a fantasia. Isto se converte no retrato de muitas daquelas lendas que estão presentes nos Antigos Documentos.
Pelo que pudemos ver também, as datas das primeiras traduções da Bíblia nas ilhas britânicas não coincidem com o seu uso directo ainda na Maçonaria, no entanto, as suas influências com relação às histórias contadas e às lendas criadas já haviam chegado por intermédio dos monges.
Qualquer alusão ao uso da Bíblia pelos Maçons antes de 1600, é fantasia, tanto que os Estatutos de Schaw (1598) ainda não a mencionam nesse sentido, afora, claro as lendas com base nela. (Assis Carvalho, pág. 38, 2009)
Grande parte das lendas mencionadas, na sua maioria bíblicas, e que permanecem registradas nos documentos antigos funcionavam no sentido de dar uma origem para a Maçonaria.
A Maçonaria atual tem o seu ideário, o seu simbolismo e a sua ritualística fundamentadas essencialmente em diversas correntes espiritualistas, esotéricas e filosóficas que a partir do século XVII e XVIII foram sendo introduzidas nos nossos rituais, enriquecendo, sobretudo, os Graus que foram sendo criados posteriormente, onde os Superiores, mas, Anderson colheu muito desse imaginário das lendas dos operativos para elaborar as suas Constituições.
Não houve durante a feitura deste trabalho a pretensão de esmiuçar quaisquer das lendas, mas, a de apontar para a riqueza da história e do simbolismo que cada uma delas abriga e que ajudam a iluminar a nossa aprendizagem, além de, apontar também para a existência de uma grande variedade de temas a ser estudados e aprofundados que estão disponíveis às futuras pesquisas dos Irmãos interessados, pois, quando se resolve estudar a história da nossa Ordem é impossível dissociar as duas Maçonarias.
José Ronaldo Viega Alves
Notas
[1] Nemrod: Personagem bíblico, filho de Cuxe. (Vide Génesis 10:8-12) Fundador do reino da Babilónia. Foi durante o seu reinado que, provavelmente, teria sido iniciada a construção da Torre de Babel.
[2] Steinmetzen: Nome da corporação dos talhadores de pedra no Santo Império romano-germânico, conhecida sobretudo pelos Estatutos de Ratisbonne (1459), que lembram muito os Old Charges. Representam um ramo da Franco-Maçonaria operativa, da qual o maior nome foi o e Erwin de Steinbach, arquitecto da catedral de Estrasburgo. (Mellor, pág. 227, 1989)
Bibliografia
Internet:
- “Fidedigno” – disponível em:lexico.pt
- “Imaginário” – disponível em: lexico.pt
- “Johannes Gutenberg” – disponível em: pt.wikipedia.org
- “Lenda” – disponível em: dicio.com.br
Livros:
- ALBERTON, Valério. “O Conceito de Deus na Maçonaria” – Gráfica Editora Aurora Ltda. – 1981
- ASSIS CARVALHO, Francisco de. “O Hebraísmo na Maçonaria” – Cadernos de Pesquisas Maçónicas – Caderno 5 – 1a Edição – 1993 – Editora Maçónica “A Trolha” – 1a Edição – 1993
- ASSIS CARVALHO, Francisco de. ”Símbolos Maçónicos e suas Origens” – Cadernos de Estudos Maçónicos – Editora Maçónica “A Trolha” 3a Edição – 2009
- CHAMPLIN, R. N. “Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia” – Editora Hagnos – 9ª Edição – 2008
- GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite Vade-Mécum Maçónico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008
- MELLOR, ALEC. “Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons” Livraria Martins Fontes Editora Ltda. 1ª Edição – 1989
- MILLER, Stephen M. & HUBER, V. Robert. “A Bíblia e sua História” – Sociedade Bíblica do Brasil – 2010
- OBRAS PREMIADAS II (Literatura e Filosofia Maçónica – Concurso Literário Demerval Cordeiro 1997) – “O Fantástico e Imprevisível Rei Salomão” – Trabalho de autoria do Irmão Sérgio Luiz Alagmovitz – Grande Loja Maçónica de Brasília – 1997
- SÁNCHEZ-CASADO, Galo. “El Templo de Salomón y las Leyendas Masónicas” – Ediciones Obelisco – 1ª Edición – 2016 – Barcelona, España
- VAROLI FILHO, Theobaldo. “Curso de Maçonaria Simbólica” – 1° Tomo – Aprendiz – Editora A Gazeta Maçónica S. A. – 2ª Edição – 1977
Hiram aparece na Bíblia como um mestre artesão ligado á tradição dos fundidores, dos metalúrgicos, dos “sopradores”, (como eram conhecidos, na Idade Média, os trabalhadores de forja), o que remete a uma ligação simbólica com Tubalcain, o artesão, que segundo a Bíblia, foi quem ensinou à humanidade a arte da metalurgia.
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