MAÇONARIA E MAÇONS

A Maçonaria é uma Ordem que se pretende Universal, formada por seres humanos de todas as raças, credos e nacionalidades. A Maçonaria é também uma fraternidade. Este adjetivo – fraternidade – designa o parentesco, o amor, a harmonia, a amizade, a união ou convivência de Irmãos (Costa, 2020). Os seus membros, uma vez acolhidos por Iniciação, reúnem-se em Lojas, onde estudam e trabalham para a construção de um ser humano melhor, visando à construção de uma sociedade fraterna, mais justa e socialmente igualitária (Freemason, 2019)
O Irmão Maçom deve ter claro o significado de ética para imprimir ao seu caminho e à vida o seu verdadeiro e justo sentido. A ação ética do Maçom deve ser lutar pela autonomia, liberdade de expressão, delegação e divisão de responsabilidades. A contribuição do Irmão é negativa quando este se afasta dos princípios da Ordem e atua visando à dominação, autoritarismo, centralização e dependência, que redunda apenas na necessidade do poder (Souza, 2016).
Nós, os Maçons, tratamo-nos mutuamente por Irmãos. Assim, estabelecemos que, uma vez ingressados na Ordem, as nossas relações são necessariamente fraternais. E é dessa forma que tratamos os nossos confrades quando nos encontramos socialmente, em Loja ou noutros ambientes fora dela. E até criamos sinais e toques para o mútuo reconhecimento.
Mais ainda. Via de regra, nós, os praticantes da Arte Real, quando vamos utilizar a palavra em Loja, damos início à nossa preleção saudando o Venerável Mestre, os dois Vigilantes, as autoridades maçónicas então presentes na Sessão e, dirigindo-nos aos demais, costumamos finalizar a nossa saudação utilizando os termos “queridos e amados Irmãos”.
Não obstante ser frequente este tratamento “educado, amigável e fraternal”, cabe a cada um de nós perguntar a nós mesmos se já os incorporamos de maneira efetiva? Digo isto porque todos sabemos que o discurso é efémero pela sua própria natureza. Sendo assim, faz-se necessário apreendê-lo efetivamente para que não seja apenas um emaranhado transitório de palavras, que acaba por se esvair rapidamente nas brumas do tempo. Para tanto, devemos iniciar por refletir se a nossa “práxis individual” como Maçons contempla de maneira concreta aqueles dois adjetivos que costumamos empregar em Loja.
Um pouco mais de reflexão. Na Ordem há uma máxima que é também utilizada frequentemente nas falações maçónicas. É algo mais ou menos assim: “A Maçonaria é perfeita; os problemas que nela encontramos devem-se ao facto de os Irmãos serem imperfeitos”. Eu também já a utilizei e, confesso, inúmeras vezes. Mas, quando nela penso melhor, concluo que seria mais correto dizê-la assim: “Os princípios da Maçonaria são perfeitos. A Maçonaria, no entanto, enquanto organização social, concreta e humana, não é perfeita, tendo em vista ser ela composta por seres humanos imperfeitos”. Talvez também pudéssemos complementar a frase com algo assim: “que buscam (pelo menos grande parte de nós) a perfeição”.
No entanto, apesar a nossa organização ter, no mínimo, algumas centenas de anos, estão aí alguns fatos concretos para desmenti-las (as afirmações) em parte: as cisões de Lojas, as dissensões entre as Potências regionais, nacionais ou internacionais, os não reconhecimentos, entre tantas outras ações típicas do mundo profano. As nossas muitas imperfeições, infelizmente, ainda se sobrepõem às nossas qualidades, em que pesem os esforços para superação das primeiras. Estes factos evidenciam que esta caminhada rumo à perfeição não é assim tão simples. As sendas que percorremos oferecem-nos inúmeros obstáculos a serem transpostos.
Graus superiores são atingidos (há inclusive os que galgam os graus máximos em vários ritos), diplomas e comendas são recebidos, medalhas reluzentes e outros adereços são colocados nos peitos estufados. Para o verdadeiro Maçom isso tudo é, apenas e tão somente, o reconhecimento pela sua dedicação à Ordem.
Mas, por outro lado, na mesma Ordem há também o pseudo maçom, aquele que ostenta esses adereços como se fossem os símbolos máximos que atestam a sua conquista da perfeição. O primeiro já mudou o seu interior e ainda busca aperfeiçoá-lo ainda mais. No caso do segundo, basta um olhar um pouco mais acurado para notar que a mudança é apenas de cunho estético. Mudou-se a casca, mas o interior não amadureceu maçonicamente, ou seja, o âmago continua com a mesma textura e constituição de quando profano.
Que fazem em Loja o Irmão e o irmão, um com maiúscula e outro com minúscula? O primeiro sabe que é preciso aprender; tudo para ele é fruto saudável para o aperfeiçoamento intelectual e moral. O segundo julga-se o dono do saber maçónico. O primeiro sabe que não domina todo o riquíssimo conhecimento da Arte Real e que é preciso estudar sempre. O segundo sabe tudo, de cor, linha por linha e considera-se o guardião do conjunto das normas que regem as Oficinas. Para ele, não há mais nada a aprender. O primeiro está sempre em fase de Iniciação e o segundo é o mestre maior; todos os demais, para ele, serão sempre “meros” Aprendizes. O primeiro prioriza o “Tempo de Estudos”; já para o segundo, a prioridade é o “Copo D`Agua”.
O Maçom deve ser tolerante, ou seja, deve desenvolver e exercer a tolerância, a habilidade de conviver, com respeito e liberdade, com valores, conceitos ou situações as quais, nem sempre, concorda (Zanotta, 2022). O pseudo maçom, diferentemente do verdadeiro Irmão, não tolera opiniões divergentes, quer que o seu modo de ver e pensar prevaleça a qualquer custo. Ele está sempre certo e os demais têm que se submeter aos seus ditames.
Como são as suas respectivas práticas? O que fazem os dois quando um Irmão comete um equívoco? O primeiro estende a mão para ajudá-lo e ensiná-lo fraternalmente. O segundo, via de regra, apenas o critica. E quando um Irmão está faltando às sessões? O primeiro procura saber a razão da ausência. O segundo, em paralelo, faz críticas ao Irmão não presente. E quando há divergências de opiniões? O primeiro explicita de forma aberta, transparente, leal, sincera e educadamente a sua própria apreciação sobre determinada ação, fala ou facto que envolve outro confrade da Ordem. O segundo faz comentários reservados, “ao pé da orelha”, com alguns outros Irmãos, contribuindo assim para a amplificação das eventuais “fofocas” que surgem e cujas origens não se sabe onde estão, permanecendo assim em conveniente anonimato.
“A pedra somos nós mesmos. Mas tendemos a cinzelar a pedra alheia. Isso é demagogia se você não trabalha na sua própria pedra. Mudar de grau não é evoluir, não passando de procedimento administrativo se não foi trabalhada a lição que o traz, por mais pomposo e ornado que sejas o avental quer agora usas.”
Assim, é fato que devemos considerar que na Ordem há Irmãos e também irmãos (com minúscula), os “primos” como se diz no jargão maçónico, ou seja, esses que nada mais são do que “profanos de avental” ou pseudo maçons. Nela há os que vestem e honram a principal vestimenta do “pedreiro livre”, considerando o seu pertencimento à Ordem como uma fonte constante de sapiência, de aprendizagem para a vida. Mas, infelizmente, há ainda outros que só possuem discursos elaborados, porém efémeros; em verdade não incorporaram efetivamente nos seus procedimentos os princípios maiores da Ordem: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A Maçonaria é, para muitos, uma escola de cognição, aperfeiçoamento moral. Para outros, apenas um ambiente para se auto-afirmarem como “superiores”, para terem inflados e lustrados os próprios egos. Assim, posto isso, cabe-nos a singela reflexão: o que fazemos nós além de usarmos um belo avental?
o verdadeiro Maçom está para além do avental e de outros adereços reluzentes. Devemos considerar Irmão de facto aquele que, despido das suas jóias, age efetivamente como verdadeiro companheiro: do latim “cum” + “panis”, significando “aquele que junto come do mesmo pão”.
Tendo em vista estas breves ponderações, em conclusão proponho a nós todos uma breve reflexão para então respondermos a algumas questões:
· O que é Maçonaria para mim? Tem ela contribuído para a lapidação de meu Templo interior?
· Como pratico a Maçonaria na minha Loja? E fora dela?
· Já incorporei efetivamente na minha vida profana os princípios mais nobres da Arte Real?
· Como trato meus Irmãos e como trato os não maçons? Dividimos o mesmo pão fraternalmente?
· Tenho um comportamento ético com meus Irmãos? E com outros com os quais convivo?
· Quais são os vícios e procedimentos que ainda trago do mundo profano e que preciso vencê-los?
· O que cada Irmão tem de melhor do que eu e como posso aproveitar o conhecimento deles para meu próprio aperfeiçoamento? Naquilo que acumulo mais experiência do que meus Irmãos, como posso contribuir para auxiliá-los nesse tema?
· Enfim, em qual categoria me enquadro: sou Maçom ou apenas uso um avental?

Comentários