Ó Deus, porque me obrigas a viver tão “consciente” das vidas que vivi?
Na infinitude das minhas memórias, porque apenas permites que me reveja como o Ser “excluído”; “diminuído” e “sofredor”?
Deus, porque mesmo no mais pequeno raio de luz que trespassa a “escuridão” destes momentos que procuro reencontrar a minha Alma, apenas iluminas esta visão de dor e pequenez?
Vejo-me sempre encostado num canto, acorrentado, desnuado, esquecido, com frio e na mais profunda solidão. Acompanhado pelas sombras e vultos que vagueiam à minha volta num enorme e ensurdecedor silêncio, nunca me “ouço”, nunca “deixo” uma mensagem a mim mesmo, nunca “olho” para mim mesmo.
A verdade, Meu Deus, é que também não “olho” para Ti, não consigo sequer tirar os olhos do vazio do chão duro onde inerte apenas “Estou”! Canso-me, mas persisto!
Persisto em tentar entender “quem fui” e qual foi o caminho e a Luz, que algum dia, alguma vez, num qualquer momento, acedeu em mim a força que me trouxe até aqui.
Só podes ter sido Tu, na Tua representação e imagem encarnada na Família que me acolheu, estendeu os braços e com a Força da Tua Palavra, do Teu Amor, fez-me sair do canto onde estava perdido, nas Trevas, amarrado a mim mesmo.
Ó Deus, porque não me sei perdoar?
Meu Deus, em Ti, na minha infância, senti a pureza da simplicidade, porque através dela encontrei as raízes da Felicidade, da Alegria e do Amor de “pertencer” e ser Amado.
Ó Deus, porque o tempo apaga em “Mim” a Simplicidade de Viver? Perene e interminável fluiu o tempo que me desviou do Teu caminho. Deus, porque me deixaste cair na tentação da materialidade da Vida? O que vale a complexidade da procura vã do Saber, da conquista ou dos Metais, perante a pureza da simplicidade que me mostraste e que me fez experimentar a Felicidade?
Deixei de te Ouvir, perdi a noção da distância entre mim e a decadência, perdi a simplicidade da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida, perdi a noção do Tempo e do Espaço, do Teu tempo e do Teu espaço, ou seja, o verdadeiro alimento do meu Coração. Caí, Ó meu Deus porque me deixaste cair?
É por isso,Meu Deus, que não me sei perdoar!
Perdi o caminho, perdi-me, ofuscado, pela “outra Luz”, a luz da cidade, do mundo material, da procura inconsequente da “perfeição” e do “reconhecimento”. E sabes, foi a Ti quem culpei!
Logo a Ti que mesmo num pequeno raio de luz, permitiste-me rever “quem fui” para dar valor a “quem sou”. Tu, que me deste a Família com a qual “Sou”, Tu que em cada queda, me amparaste, mostraste-me o caminho, mesmo que difícil, para me reencontrar e renascer.
Por duas vezes colocaste a Tua mão Divina para travar a minha vontade de “morrer” e Disseste-me as palavras certas para recentrar a minha Vida, não em mim, mas na Vida das minhas filhas, da minha Mulher e do valor do exemplo de Amor à vida pela vivência de Família dos Meus Queridos e Teus amados, Pais. Nesses 10 segundos, Meu Deus, NUNCA estive tão perto e tão certo de Ti.
Mais uma vez, Expressaste-te através do meu Irmão, quando ele me colocou no caminho deste A:.O:. e especialmente deste Rito que te Glorifica e trabalha para Ti.
Tu, és a Luz e o caminho porque “Estás”, e porque permites que cada um de nós mortais e pecadores, quando caímos, possamos reintegrarmo-nos para “Estar” e “Ser”. Sempre que “morro”, vivo e reencontro-me Contigo.
Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: e aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. E todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da lua emerge numa brancura eléctrica parada, recortado a longínquo e a insensível.
Desassossego,
Bernardo Soares – Fernando Pesso
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