Nietzsche e o sentido tradicional da filosofia

 

"Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia, fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença 'um ponto de vista' sobre a saúde e vice-versa. Para ele, nem a saúde, nem a doença são entidades; a fisiologia e a patologia são uma única coisa; as oposições entre bem e mal, verdadeiro e falso, doença e saúde são apenas jogos de superfície.


Há uma continuidade, diz Nietzsche, entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau, sendo a doença um desvio interior à própria vida; assim, não há fato patológico.

A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa, esconde um saber fatal e 'demasiado certo'.

A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a 'meditação ascética', que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões; com isso, a vontade de potência, a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados 'manifestações diabólicas'.

Mas, para Nietzsche, aniquilar as paixões é uma 'triste loucura', cuja decifração cabe à filosofia, pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as ideias novas, rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores.

Para Nietzsche, os homens do passado estiveram mais próximos da ideia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria, alguma coisa de divino: 'Pela loucura os maiores feitos foram espalhados pela Grécia'.

Em suma, aos 'filósofos além de bem e mal', aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso, diz Nietzsche, a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade, sob o travestimento da loucura.

É dentro dessa perspectiva, portanto, que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche.

Sua crise final apenas marcou o momento em que a 'doença' saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento.

As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e, como tal, pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento.

A filosofia foi, para ele, a arte de deslocar as perspectivas, da saúde à doença, e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: 'Na verdade, a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa, ainda que para outros signifique doença... Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade'."

Antônio Cândido, no posfácio de Nietzsche- Obras Incompletas.

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