De vez em quando, andando pela rua com as mãos nos bolsos e a alma sem guarda-chuva, eu penso na canalhice como quem pensa na chuva, ela sempre volta, às vezes miúda e fria, outras vezes pesada e barulhenta, mas nunca deixa de cair.
A canalhice não é um ato, é uma disposição.
Um certo jeito de se ajeitar na poltrona do mundo, olhando tudo com aquele sorriso lateral, como quem já sabe o truque por trás da mágica. O canalha, esse personagem discreto mas insistente da vida cotidiana, é aquele que não precisa gritar para nos fazer perder a fé. Ele apenas existe, suave como um sopro de mofo.
Lembro de um que conheci, desses homens bem vestidos, que falam baixo e sempre têm um elogio a dizer na hora errada. Era simpático como um cão domesticado, e seus olhos brilhavam não de ternura, mas de cálculo. A cada frase, a cada gesto, parecia pesar as palavras como quem pesa moedas numa balança. Um dia, deixou uma amiga na sarjeta com um sorriso e uma frase gentil, disse que precisava pensar em si mesmo, e foi embora com a elegância dos canalhas antigos.Há também os canalhas poéticos, esses que falam de amor como quem escreve receita de pão, com doçura e exatidão, e somem antes do forno. Esses são perigosos, porque deixam saudade. E há os canalhas burocráticos, que assinam papéis que arruinam vidas, mas sempre com a consciência tranquila e a gravata bem alinhada.Não se engane, a canalhice não mora só no outro.
Às vezes ela cochicha dentro da gente, quando fingimos não ver, quando dizemos “não é problema meu”, quando nos calamos por conveniência. Todos temos uma pontinha de canalha adormecido, um pequeno cinismo engavetado. A diferença é que alguns tratam isso como doença, e outros como talento.Mas, no fundo, o que mais me inquieta na canalhice é sua impunidade estética. O canalha, muitas vezes, se dá bem. Ri, envelhece com saúde, conta histórias no bar. Enquanto os ingênuos amargam desilusões, o canalha sorri com aquele ar de quem já nasceu sabendo que esperança é um investimento ruim.Ainda assim, gosto mais dos ingênuos. Eles erram com nobreza, tropeçam de coração aberto. São como flores que crescem no cimento, frágeis, mas insistentes. E talvez sejam eles, com toda sua falta de malícia, os únicos capazes de fazer a vida valer um pouco a pena, apesar dos canalhas que passam por ela como sombras confortáveis e frias.E então, se me perguntarem o que penso da canalhice, direi apenas isso, ela é triste, mas educada. Anda de sapato engraxado, fala com polidez, beija as mãos da senhora, e assina os papéis que condenam os justos.
E depois, ainda acende um cigarro na varanda, olhando o pôr do sol como se tivesse feito algo belo.Mas o pôr do sol, esse não é dele. É nosso. E que nunca deixemos de admirá-lo, mesmo que a canalhice esteja sentada ali ao lado, rindo baixinho.(Oliver Harden)
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