GUARDIÃO DO LIVRO - Mirdad e Shamadan

 


“Levanta-te, ó feliz estrangeiro.            Atingiste o teu alvo”.
Ressecado de sede e me contorcendo debaixo dos raios de um sol escaldante, abri levemente os olhos e me vi deitado no chão.
Com o vulto negro de um homem curvado sobre mim que, com delicadeza, me umedecia os lábios com água e cuidadosamente lavava os meus ferimentos.

Era cheio de corpo, de feições rudes, com a barba e as sobrancelhas hirsutas, de olhar profundo e aguçado, de idade muito difícil de determinar.

Contudo, o seu toque era suave e reconfortante.

Foi com o seu auxílio que pude sentar-me e perguntar com voz tão sumida que mal soava aos meus próprios ouvidos.

“Onde estou?” “No Pico do Altar.”
“E a gruta?” “Atrás de ti.”
“E o Abismo Negro?” “Na tua frente.”

Era imenso o meu assombro quando olhei e vi atrás de mim a gruta e na minha frente o negro abismo como uma imensa boca escancarada.

Eu me encontrava bem à beira do precipício e então pedi ao homem que me levasse para dentro da gruta.

O que ele fez com a maior boa vontade.
“Quem me tirou do Abismo?” “Aquele que te guiou até o alto deve ter-te tirado do Abismo.”
“Quem é ele?” “O mesmo que atou a minha língua e me manteve prisioneiro neste Pico durante cento e cinqüenta anos”.
“Vós sois, então, o abade prisioneiro?” “Sim, sou eu”.
“Mas vós falais; ele é mudo!” “Tu desataste a minha língua.”
“Ele evita a companhia dos homens; mas ao que parece não tens medo de mim.”
“Evito todos os homens, menos tu.”
“Jamais até hoje viste o meu rosto. Por que evitar todos os homens, menos eu?”
“Durante cento e cinqüenta anos estive à tua espera.

Durante cento e cinqüenta anos, sem falhar um só dia, em todas as estações do ano e com todo e qualquer tempo, os meus olhos pecadores procuravam por entre os rochedos da Escarpa, um homem que havia subido a montanha.

Chegando aqui como tu chegaste, sem cajado, nu e sem provisões.

Muitos foram os que tentaram por outros caminhos, porém não vinham sem cajado, nus e sem provisões.

Durante todo o dia de ontem estive observando a tua caminhada.

À noite deixei que dormisse na gruta, mas ao alvorecer aqui vim e te encontrei desacordado e sem alento.
Mas tinha certeza de que voltaria à vida. Aí está! Mais vivo do que eu.
Tu morreste para viver. 
Eu estou vivendo para morrer. 
Glória seja dada ao seu nome!
Tudo se passou conforme as suas promessas. Tudo foi como deveria ser.
Não tenho a menor dúvida de que és o escolhido”.

MIRDAD
“Quem?”
“O bem-aventurado em cujas mãos devo entregar o Livro Sagrado para que o publique e o entregue ao mundo”.
“Que livro?” 
“O livro dele, o Livro de Mirdad”.
“Mirdad? Quem é Mirdad?”
“Será possível que não tenhas ouvido falar em Mirdad? Que coisa mais estranha!

Eu estava absolutamente certo de que nesta época o seu nome já houvesse sido propagado por toda a terra, tal como interpenetra o solo debaixo dos meus pés e o céu por cima de mim.

Este solo sagrado é estrangeiro, pois os seus pés nele pisaram.
É sagrado este ar que nos envolve pois os seus pulmões o respiraram.
É sagrado este céu que nos cobre pois os seus olhos o perscrutaram”.

Assim dizendo o monge curvou-se reverentemente, beijou três vezes o solo e calou-se.

Depois de uma pausa eu disse:
“Acicatais o meu desejo de saber mais a respeito desse homem que chama de Mirdad”.
“Volta para mim o teu ouvido e eu te contarei tudo o que me é permitido contar.

O meu nome é Shamadan.
Eu era o Superior da Arca no dia em que faleceu um dos Companheiros da Arca.
Mas havia a sua alma partido e vieram me avisar que um estranho se achava no portão pedindo para me falar.
Bem sabia eu que ele havia sido enviado pela Providência para tomar o lugar do Companheiro falecido.
Deveria ter me regozijado pelo fato de Deus ainda estar cuidando da Arca.
Tal como havia feito desde a época do nosso pai Sem”.

Nesta altura, eu o interrompi para perguntar se era verdade o que havia contado o povo da falda da Montanha.
Falando que a Arca foi construída por Sem, o primeiro filho de Noé.
A sua resposta foi imediata e enfática: “Sim. É exatamente conforme disseram.”
Ele continuou a história interrompida“.
Pois bem. Eu deveria ter me regozijado.
No entanto, por motivos inteiramente fora do meu entendimento, estabeleceu-se uma revolta no meu coração.
Antes mesmo de eu ter posto os olhos sobre o estranho, já todo o meu ser lutava contra ele.
Então, resolvi recusá-lo, embora no meu íntimo estivesse certo de que quebrava as invioláveis tradições do Mosteiro.
Concomitantemente, rejeitava "Aquele" que o havia enviado.
Quando abri o portão vi que era um jovem de não mais de vinte e cinco anos.
Mas senti no peito milhares de punhais com os quais desejava feri-lo.
Ele estava Nu, aparentemente faminto e sem ter o menor meio de proteção.
Sem ter nem ao menos um cajado, parecendo inteiramente indefeso.
Havia, porém, no seu rosto uma Luz com um aspecto mais invulnerável do que o de um cavalheiro de armadura.
O que o fazia parecer muito mais idoso do que realmente era.
Todo o meu ser, desde o mais íntimo do meu coração, bradava contra ele.
Todas as gotas do meu sangue desejavam esmagá-lo.
Não me peça explicações.
Talvez o seu olhar penetrante me estivesse desnudando a alma.
Eu estava aterrorizado em ver a minha alma nua diante de um homem.
Talvez a sua pureza revelasse a minha imundície.
E me doesse ver dilacerados os véus que até então eu vinha tecendo para ocultá-la.
Talvez houvesse uma velha contenda entre a estrela dele e a minha.
Quem sabe? Quem poderia saber? Só ele poderá dizer.
“No tom mais ríspido e impiedoso, eu lhe disse que não poderia ser admitido na Comunidade.

Ordenei-lhe que se retirasse imediatamente.
Ele, porém, não se moveu do lugar e calmamente me aconselhou a refletir melhor.
O seu conselho me pareceu um insulto e cuspi no seu rosto.
Ainda assim ele não se retirou.
Limpando vagarosamente a saliva do rosto, mais uma vez me aconselhou a reconsiderar a minha decisão.
Enquanto ele limpava a saliva do rosto, eu tinha a impressão de que era o meu rosto que estava emporcalhado com ela.
Sentia-me derrotado e no íntimo admitia que a luta era desigual, sendo ele o mais forte”.
ORGULHO
“Como sempre sucede quando o orgulho é derrotado, o meu se recusou a ceder.
Lutando até se ver caído e pisado no pó da terra.
Eu estava quase cedendo ao pedido do homem. Mas primeiro queria vê-lo humilhado.
Ele, porém, de modo algum se humilhava”.
“Subitamente, ele pediu alimento e roupas e com isso reviveram as minhas esperanças.
Com a fome e o frio combatendo a meu favor, julguei que a batalha estivesse vencida por mim.
Cruelmente, lhe declarei que o Mosteiro vivia de caridade e por isso não podia fazer caridade.
Assim dizendo, eu mentia desavergonhadamente.
Pois o Mosteiro era extraordinariamente rico para negar alimento e roupas aos necessitados.
O que eu desejava era que ele suplicasse.
Mas isso ele não fazia. Pedia como quem tinha direito àquilo que solicitava.
Havia uma aparência de comando no seu pedido”.
“A luta durou bastante tempo, porém a situação não mudou.
Desde o início até o fim, ele comandou a batalha.
Para esconder a minha derrota, finalmente propus que ele entrasse na Arca, porém como servo, somente como servo.
Para mim isso era um consolo, pois eu pensava que para ele era uma humilhação.
No meu orgulho eu não me dava conta de que era eu o mendigo e não ele.
Para confirmar a minha humilhação, ele aceitou a proposta sem nem ao menos murmurar.
Não me passava pela cabeça que aceitando-o como servo - mesmo como um servo - eu estava me excluindo.
Até o último dia me aferrei à ilusão de que era eu e não ele, o Mestre da Arca".

MESTRE
"Ah, Mirdad! Mirdad, o que fizeste a Shamadan! Shamadan o que fizeste a ti mesmo!”
Duas grandes lágrimas vieram molhar as suas longas barbas.
Senti-me comovido e lhe disse:
“Peço que não fale mais desse homem, cuja memória sai dos seus lábios com lágrimas”.
Não se perturbes, abençoado mensageiro.
É apenas o orgulho do Superior de outrora que ainda destila estas lágrimas de fel.
É a autoridade da letra da lei que está rangendo os dentes contra a autoridade do Espírito.
Deixa o orgulho chorar. Ele chora a sua morte.
Deixa a autoridade ranger os dentes; pois é pela última vez que o faz.
Ah! Se os meus olhos não estivessem tão vendados pela neblina deste mundo.
Quando pela primeira vez encarei o seu rosto celestial!
Ah! Se os meus ouvidos não estivessem tão entupidos com a sabedoria deste mundo.
Quando foram desafiados pela sua sabedoria divina!
Ah! Se a minha língua não estivesse tão recoberta das amargas doçuras da carne.
Quando lutava com a sua língua revestida do Espírito!
Tenho colhido muito e ainda terei a colher mais do joio da minha ilusão”.

AMN.
Fonte: "Livro de Mirdad", de Mikhail Naimy.
Imagem: Arquivo: Barco da Salvação no Mar da Vida.
Antônio Monteiro

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