Fundo e forma: entre a ilusão e o eterno ...

 

Nas minhas meditações me descubro vezes sem conta me deparei com a mesma coisa: nossa obsessão com a forma.
Eu percebo que a forma é o molde, a aparência, o que se vê. O fundo é o que sustenta, o que dá vida. E eu percebo que muitas vezes vivemos presos na forma, esquecendo o fundo.
Eu vejo no espiritual: lembro-me de estar em cerimônias onde cada palavra da oração era cuidada, cada movimento do ritual, mas sentia-se vazio... porque a ligação com o divino não estava lá. Então eu entendo: a forma sem fundo vira concha.

Vejo isso nas relações:
quanto tempo pensei que amar era atender expectativas externas, mostrar um "casal perfeito".

Até que descobri que você pode sorrir em público e se sentir vazio em privado...

A forma sozinha não sustenta nada.
Eu vejo no cotidiano: seguir uma receita à letra e deixar a comida sair sem sabor.

Me vestir para me encaixar na moda e não me reconhecer no espelho.

Defender uma ideologia como se fosse eterna, até que o tempo mude e a envergonhe.
Em contraste, lembro-me dos antigos artesãos. Imagino o ferreiro com o metal queimando nas mãos.

Sim, eu tinha uma receita, mas eu sabia que cada espada era única.

Ouvia a vibração da folha, sentia quando bater, quando parar. Igual ao oleiro, alimentando o forno, cuidando da chama.

Não eram apenas números exatos, era ouvir o fluxo.
E penso no que fizemos hoje:
fábricas em série, peças idênticas, feitas para durar pouco.

Segurar a forma sem sentir o fundo.

E então eu entendo porque as obras que transcendem séculos são as que nasceram em harmonia com esse fluxo, não as que saíram de moldes repetidos.

A história confirma a mesma coisa:
há tantas versões da Bíblia que já não sabemos qual "é a verdadeira".

O que ontem foi beleza, hoje é defeito.
O que ontem foi virtude, hoje é vício.
A forma sempre muda.

Lembro-me do que Bashar diz:
tudo muda.

Apenas as leis fundamentais da existência permanecem.
E de repente eu vejo:
nossa sombra é querer agarrar-nos a moldes caducos, acreditando que a segurança está aí.

A forma faz sentido enquanto se conecta com o fundo.

O dia que se desliga, vira enfeite.
E agarrar-se ao ornamento é perder o essencial.

Vem-me à mente Miguel Ângelo, que dizia:
“Cada bloco de pedra tem uma estátua dentro de si e é tarefa do escultor descobri-la.”
E percebo que os grandes mestres
fizeram o mesmo:
Buda, Cristo, Guru Rinpoche... nenhum deixou receitas exatas, apenas guias.

Porque cada pedra é diferente,
e cada um deve esculpir a sua.

Hoje eu me pergunto, e te convido a perguntar também:
— Antes de repetir um ritual,
você está sentindo a ligação ou
apenas cumprindo passos?
— Antes de criticar o seu parceiro, você está se agarrando à forma de como “deve ser” em vez de ver o seu fundo?

— Antes de medir sua vida por títulos ou salários, você está escolhendo o que te expande ou o que te prende?
Tudo muda.
Apenas a essência permanece.

E a única coisa que nos salva de nos perdermos na ilusão
é aprender a voltar ao fundo.


(Adya-Shivael, à luz!)

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