A Doutrina do Equilíbrio (M ∴M ∴ KaeL)

                                                

Um dos ensinamentos mais profundos
e mais esquecidos
da Maçonaria é a doutrina do equilíbrio.

Não como uma simples posição intermediária entre dois extremos, mas como um princípio dinâmico, vital e espiritual que sustenta o universo, a alma e o Templo.
Equilíbrio não é passividade, nem quente.

É harmonia em tensão, força contida, sabedoria silenciosa que sabe quando seguir em frente e quando parar, quando falar e quando calar, quando segurar e quando soltar.

Em outras palavras:
é a arte da justa medida, a mesma que aplicam tanto o sábio como o bom arquiteto.

Na tradição maçônica, tudo está pronto com intenção simbólica:
Oriente e Ocidente,
coluna J e coluna B,
esquadra e compasso.

Nada é aleatório.
Cada elemento tem o seu oposto complementar.

Porque na construção do templo
— e também na da alma —
tudo deve estar balançado.

Joseph Fort Newton nos lembra que esta doutrina é um dos segredos mais antigos da Ordem.

Os antigos iniciados sabiam que a virtude não está nos extremos.

Que o rigor excessivo destrói,
mas também o excesso de indulgência.

Que a luz sem sombra cegue, e a sombra sem luz leve ao abismo.

É por isso que, no centro do templo,
sempre se procura a linha reta,
a balança justa,
a proporção exata entre forças opostas.

Este ensinamento tem raízes profundas.
Já os sábios herméticos ensinaram que “tudo tem o seu par de opostos”, e que “a reconciliação dos opostos é a base do equilíbrio universal”.

Na Cabala,
a Árvore da Vida divide-se em três colunas:
a da Misericórdia, a do Julgamento e a do Equilíbrio
— esta última chamada Tiferet, Beleza —
que une ambas e as mantém em tensão fecunda.

Também na antiga alquimia,
a obra só se realiza
quando o enxofre (a paixão),
o mercúrio (a mente) e
o sal (a matéria).

Sem esse equilíbrio,
a pedra filosofal não é alcançada.

E o mesmo acontece na alma humana:
se o intelecto domina sem o coração, há frieza;
se o coração domina sem razão, há caos.

Só quando ambas
as faculdades se equilibram
surge o verdadeiro homem de virtude.

O maçom, como construtor de si mesmo, deve cultivar esse equilíbrio.
Não pode ser escravo das suas emoções, mas também não pode negar.
Não pode se refugiar na pura razão, nem ceder à irracionalidade.

Seu dever é ser uma coluna firme
no Templo da Humanidade,
e isso requer medida, serenidade,
domínio de si mesmo.

O equilíbrio é também uma forma de justiça, porque permite olhar para os assuntos sem preconceito, sem parcialidade, sem reação.

Quem vive de equilíbrio
não age por impulso,
mas por consciência.

Não responde da ferida, mas sim do centro.

E esse centro não se improvisa: cultiva-se.

É fruto da introspecção, do trabalho interior, do silêncio que ouve antes de julgar.
Mas este princípio não se aplica apenas ao indivíduo:
rege também as nossas Logias.

Uma loja desequilibrada, onde o poder se impõe sem sabedoria ou onde o caos se disfarça de liberdade, se torna uma estrutura frágil.

omente quando o dever é harmonizado com o afeto, a disciplina com a comprSeensão, a tradição com o discernimento, é que uma Loja pode florescer como verdadeira Oficina da alma.

O equilíbrio é também o que permite a convivência entre irmãos diferentes.

Diversidade não é ameaça,
mas riqueza,
desde que haja centro.

E esse centro é a busca comum pelo bem, verdade e beleza.
Esta doutrina, embora antiga, é mais necessária hoje do que nunca.

Em um mundo dividido por opiniões extremas, emoções transbordadas, dogmas sem coração, o maçom deve ser um ponto de equilíbrio.

Não como quem se esconde para evitar tomar posição, mas como quem age pela clareza, sem ódio ou medo.

Como quem sabe que a sabedoria não está em gritar mais alto, mas em viver em eixo com os princípios eternos.

Equilíbrio é a verdadeira força.
E a prova da sua possessão é a paz interior, a temperança, a equanimidade.
Quem encontrou o seu centro não precisa se impor:
sua única presença ordena.
Sua palavra é sóbria.
Seu gesto é justo.
Seu silêncio é eloquente.

Por isso, em cada trabalho,
em cada decisão,
em cada reação,
perguntemo-nos:

Estou atuando do centro ou do desequilíbrio?
Da proporção ou da ferida?
Da harmonia do templo ou do barulho do mundo?

Lembre-se:
a pedra só vira ângulo quando está bem nivelada.
E o templo só se sustenta quando as forças contrárias se equilibram em amor e retidão.

Ad gloriam Magni Architecti Universi.

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