Sobre a agressão psicológica das mulheres aos homens e o animus negativo
Dedicatória:
A todos os homens que sofreram em silêncio a violência psicológica nas relações íntimas. E também às mulheres que, com coragem, se dispõem a olhar para a própria sombra não para se culparem, mas para se tornarem mais conscientes e livres.
Quando se fala em violência doméstica, o imaginário coletivo dirige-se quase exclusivamente para a agressão do masculino sobre o feminino.
E com razão. A violência física, explícita e destrutiva exercida por homens sobre mulheres é uma realidade grave, antiga e ainda presente.
Mas há um outro território de violência, menos visível, menos nomeado e por isso mais difícil de reconhecer.
A violência psicológica exercida por mulheres sobre homens.
Esta forma de violência raramente deixa marcas no corpo. Deixa marcas na identidade, na confiança, no desejo de existir e na relação do homem consigo mesmo.
É uma violência silenciosa, contínua, muitas vezes socialmente legitimada, e por isso profundamente solitária para quem a vive.
Na clínica, vejo muitos homens que não chegam a dizer que foram vítimas de violência.
Dizem que estão confusos, exaustos, desorientados, diminuídos.
Dizem que já não sabem quem são, que caminham sobre ovos, que qualquer palavra pode ser usada contra eles.
Dizem que se sentem constantemente em falta, errados, insuficientes.
E, quase sempre, carregam uma culpa difusa que não sabem explicar.
Esta violência não nasce, na maioria das vezes, de maldade consciente.
Nasce da sombra do feminino não integrado, aquilo que Jung descreveu como animus negativo.
Quando o animus se torna tirano, a mulher passa a relacionar-se com o homem não a partir do Eros, mas a partir do poder, do controlo e da moralização.
A violência psicológica feminina manifesta-se muitas vezes através da crítica constante, da desqualificação subtil, da ironia, do silêncio punitivo, da retirada de afeto, da manipulação emocional, da inversão da culpa.
O homem é frequentemente colocado numa posição infantil, onde nunca está à altura, nunca responde corretamente, nunca faz o suficiente.
Qualquer tentativa de afirmação é lida como ataque. Qualquer limite é vivido como abandono.
Qualquer autonomia é interpretada como desamor.
Ao contrário da violência física, esta violência é difícil de nomear.
O homem sente-se agredido, mas não consegue apontar o golpe.
Sente-se diminuído, mas não sabe explicar como.
Muitas vezes cala-se, porque socialmente não há lugar para a sua dor.
Um homem que se queixa de violência psicológica é frequentemente ridicularizado, descredibilizado ou acusado de fraqueza.
Para a mulher, este padrão é igualmente destrutivo.
Quando o animus negativo domina, ela perde a capacidade de relação viva.
Passa a usar a palavra como arma, a moral como defesa e o controlo como falsa segurança.
Muitas vezes acredita que está apenas a exigir maturidade, verdade ou responsabilidade.
Mas, na realidade, está a tentar regular a própria angústia através do domínio do outro.
É importante dizer isto com clareza e sem acusações. Todas as mulheres carregam um animus.
Em muitas, ele manifesta-se de forma crítica, julgadora e punitiva, especialmente quando há medo de abandono, feridas antigas ou ausência de amor próprio.
A violência psicológica não surge do excesso de força, mas da fragilidade não reconhecida.
O que torna esta violência particularmente cruel é o facto de muitas vezes se exercer em nome do amor.
Em nome da relação.
Em nome do bem do outro.
Mas o amor não diminui, não confunde, não apaga.
O amor não destrói lentamente a identidade do parceiro.
Este artigo não é um julgamento
às mulheres.
É um convite à consciência. Um convite a cada mulher para se perguntar, com honestidade, se alguma vez usou a palavra para ferir, o silêncio para punir, a culpa para controlar, o amor como moeda de troca.
Não por maldade, mas por medo.
Não por crueldade, mas por inconsciência.
A maturidade feminina começa quando o animus deixa de ser um juiz interno e passa a ser um mediador entre pensamento e relação.
Quando a mulher aprende a confrontar sem humilhar, a pedir sem exigir, a diferenciar sem destruir.
Quando reconhece que amar um homem não é moldá-lo, mas encontrá-lo.
Aos homens que lerem este texto,
deixo também uma palavra.
A violência psicológica existe.
Não é fraqueza reconhecê-la.
Não é traição a si próprio nomeá-la.
O silêncio prolongado diante da desqualificação constante corrói a alma.
Procurar ajuda,
pôr limites e sair de relações destrutivas
é um ato de dignidade.
A violência doméstica não tem apenas punhos.
Tem palavras.
Tem silêncios.
Tem olhares.
E enquanto não formos capazes de olhar também para esta face da sombra feminina, continuaremos a repetir relações onde ninguém ama verdadeiramente e todos adoecem.
A consciência não protege
apenas as vítimas.
Liberta também quem agride
sem saber que o faz.
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