Nessa entrevista Jung fala sobre o acusarem de nazista e anti-semita.

C: (O Dr. Jung recebeu-me em seu jardim de Küsnacht, e sentamo-nos numa mesa redonda de pedra, à sombra de um círculo de altas árvores.

Eu já tinha enviado ao Dr. Jung uma lista de citações de textos seus que eram usadas contra ele; e, antes de iniciarmos a nossa conversa, ele voltou a passar os olhos por essa lista.)

J: Quando as pessoas se precipitam em falsas conclusões, elas preferem frequentemente apegar-se aos seus preconceitos. Não adianta responder as pessoas que desejam persistir no erro e na incompreensão, pois elas não estão interessadas em encontrar a verdade objetiva.

C: Sim, mas numerosos leitores são confundidos pelo escarcéu geral. O senhor não responderá a algumas perguntas sobre as mais importantes acusações sobre si, para deixar bem claro o seu ponto de vista àqueles que estão realmente interessados em conhecer a verdade?

Deve ser claro para qualquer pessoa que tenha lido qualquer dos meus livros que nunca fui um simpatizante nazista e jamais fui anti-semita, e nenhuma citação deturpada, nenhum erro de tradução ou retoque mal-intencionado, fora do contexto do que eu escrevi, pode alterar o testemunho do meu verdadeiro ponto de vista.

Praticamente todas essas citações foram adulteradas, por intenção dolosa ou por ignorância.

Além disso, minhas relações amistosas com um grande número de colegas e pacientes judeus, ao longo de muitos anos, refutam por si mesmas a acusação malévola de anti-semitismo.

Vejamos a mais importante das citações incorretas (SRL, 11 de junho): "O judeu é um relativo nomade, nunca teve e nunca terá sua própria cultura... O inconsciente ariano é um inconsciente superior ao do judeu."

É significativo que, quando é lido o contexto na integra, essas frases adquirem exatamente o significado oposto do que lhes foi atribuido pelos "pesquisadores".

Essas frases erroneamente traduzidas foram tiradas de um artigo intitulado "Sobre a Situação Atual da Psicoterapia", publicado no Zentralblatt für Psychotherapie (Vol. 7, N. 1 e 2).

Uma extensa apresentação dos principais pontos desse artigo foi publicada num trabalho de 32 páginas da autoria do Dr. Ernest Harms: "Carl Gustav Jung: Defender of Freud and the Jews" (Psychiatric Quar terly, abril de 1946).

Para se avaliar o significado dessas frases "suspeitas", dou-lhe na integra o parágrafo em que elas figuram:
"Em conseqüência de sua cultura mais de duas vezes mais antiga, eles (os judeus) são amplamente mais conscientes das fraquezas e inferioridades humanas, e, portanto, muito menos vulneráveis do que nós a esse respeito. Também devem à experiência de uma antiga cultura a capacidade para viverem conscientemente em vizinhança amigável, benevolente e tolerante com seus próprios defeitos, ao passo que nós somos ainda jovens demais para não alimentarmos ilusões a nosso respeito... O judeu, como membro de uma raça cuja cultura tem cerca de 3.000 anos, tal como os chineses educados, é psicologicamente consciente em áreas mais vastas do que nós... O judeu, como relativamente nômade, nunca produziu, e presumivelmente nunca produzirá, uma cultura própria, uma vez que todos os seus instintos e talentos requerem um povo-anfitrião mais ou menos civilizado para o seu desenvolvimento. Portanto, a raça judaica, como um todo, possui, de acordo com a minha experiência, um inconsciente que só condicionalmente pode ser comparado ao ariano. Com exceção de alguns indivíduos criativos, o judeu médio já está por demais consciente e diferenciado para que se impregne das tensões do futuro por nascer. O inconsciente ariano tem um potencial mais elevado do que o judaico; essa é a vantagem e a desvantagem de uma juvenilidade que não se separou ainda inteiramente do barbarismo".

Como esse artigo ia ser impresso na Alemanha (em 1934), tive que escrever de um modo algo velado mas, para alguém no pleno uso da razão, o seu significado deveria ser claro.

Eu tinha que ajudar essa gente. Tinha que deixar claro que eu, um ariano fora da Alemanha, batia-me por uma abordagem científica da psicoterapia.

Esse era o ponto!

Não consigo ver nessa exposição nada, absolutamente nada, que possa ser interpretado como anti-semítico.

É simplesmente uma avaliação de certas diferenças psicológicas fundamentais e, na verdade, é lisonjeiro para os judeus assinalar que eles, em geral, são mais conscientes e diferenciados do que o ariano médio, que permaneceram próximos do barbarismo!

E é um fato histórico que os judeus têm demonstrado uma extraordinária capacidade para se tornarem veículos transmissores das culturas de todos os países por onde se espalharam. Isso revela um alto grau de civilização, e tal adaptabilidade cultural é digna de admiração.

Algumas pessoas mostram uma divertida espécie de irritação ou ressentimento quando se fala de diferenças psicológicas... mas cumpre admitir que diferentes nacionalidades e diferentes raças têm diferentes concepções de vida, diferentes perspectivas e diferentes psicologias.

Veja a diferença entre o francês e o inglês ou, no caso, entre o inglês e o americano!

Em todo o lado existe uma acentuada diferença na psicologia.

Só um idiota não consegue enxergar isso.

É de um ridículo atroz ser tão hipersensível a respeito de tais coisas.

São fatos da experiência que não podem ser ignorados.

Em 1948, Fundação Bollingen, que tinha sido criada três anos antes, doou verbas a pedido da Biblioteca do Congresso para estabelecer um prêmio anual de Poesia.

A Biblioteca atribuiu-lhe o nome de Prêmio Bollingen de Poesia e designou os membros da seção de Letras Americanas da Biblioteca como do seu júri para a concessão desse prémio.

Em fevereiro de 1949, a Biblioteca anunciou que o primeiro prêmio anual tinha sido concedido, por recomendação do júri, a Ezra Pound.

Nessa época, Pound estava sendo julgado por traição, sob a acusação de atividades de propaganda em apoio do inimigo durante a guerra; e, tendo sido dado como louco por uma junta midica, encontrava-se confinado num hospital psiquiátrico do governo.

No inicio, as reações ao prêmio foram relativamente moderadas mas, em junho, um poeta e crítico literário, Robert Hillyer, publicou dois artigos na Saturday Review of Literature que arrastaram arbitrariamente Jung para a controvérsia, por causa do interesse da Fundação Bollingen em sua obra, e o apresentaram como nazista, anti-semita e participante de uma conspiração para preparar "um novo autoritarismo".

O caso foi bem documentado num folheto, The Case Against "The Saturday Review of Literature", publicado pela revista Poetry de Chicago, em outubro de 1949.

Carol Baumann, uma discipula americana de Jung residindo na Suíça, achou que era "o momento para que a voz do próprio Jung fosse ouvida e, portanto, solicitei-lhe uma entrevista".

Esta foi publicada no Bulletin of the Analytical Psychology Club of New York (uma publicação reservada e mimeografada), em dezembro de 1949.

Livro: Entrevistas e Encontros

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