A QUERELA DO GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO

 

Em 1870, um grupo de maçons franceses conhecidos como "Os inovadores", quiseram suprimir em nome da liberdade de consciência a obrigação de invocar o "Grande Arquiteto do Universo".

Surgiu assim o que na Maçonaria Francesa é conhecido como "A Querela do Grande Arquiteto do Universo".

Dois anos depois, em 1872, o Grande Oriente da Bélgica alterou o artigo 12o dos seus estatutos e regulamentos gerais: eliminou a referência ao Grande Arquiteto do Universo e também a obrigação de invocá-lo.

Este fato marcou um importante ponto de viragem porque constituiu uma clara e definitiva ruptura com a Tradição Maçônica e com os antigos Usos e Costumes da Ordem.
O Convento de Lausanne de 1875: uma tentativa de evitar a ruptura definitiva.

Em meio à polêmica desencadeada pela Querella do Grande Arquiteto do Universo, em 1875, o Supremo Conselho da França tomou uma iniciativa transcendental: convocou todos Supremos Conselhos do Rito Escocês Antigo e Aceito, vinte e dois no total, para um Convento Universal que se realizou na cidade suíça de Lausanne de 6 a 22 de setembro desse ano.

A delegação francesa foi presidida pelo Grande Comendador do Supremo Conselho de França, Adolfo Crémieux, promotor e organizador desta importante reunião maçônica internacional.

Durante o Convento, que só assistiram onze Supremos Conselhos, foram adoptadas por unanimidade uma série de medidas importantes e aprovou um "Manifesto" que incluía uma "Declaração de Princípios do Rito".

O ponto mais importante da "Declaração" afirma que: "A Maçonaria proclama, como tem feito desde a sua origem, a existência de um Princípio Criador, sob o nome de Grande Arquiteto do Universo".

Os delegados dos 11 Supremos Conselhos Assistentes decidiram não identificar o "Grande Arquiteto do Universo" com o conceito de "Deus das Religiões" e para isso propuseram formulações com uma projeção universalista: Criador Superior, Princípio Criador ou Força Superior.

O que se pretendia com estas formulações, entendidas em um sentido amplo, era conciliar a afirmação de um Princípio Criador (fundamento espiritual do Universo) com o respeito pela liberdade de consciência de cada maçom.

A "Declaração" terminou expressando que a Maçonaria não é uma religião, que não tem culto, que deseja uma instrução secular e que sendo uma escola mútua o seu programa se resume da seguinte forma: obedecer às leis do país, viver com honra, praticar a justiça, amar os seus semelhantes, trabalhar sem desfalecer pelo bem da humanidade e perseguir sua emancipação progressiva e pacífica.

Infelizmente, essa louvável intenção foi logo origem de novas controvérsicas: alguns Conselhos Supremos, sobretudo os anglo-saxões, que não estavam afectados pelas condenações pontifícias e não estavam preocupados com a laicidade, recusaram-se a ratificar o que tinham acordado e aprovado no Convento de Lausanne.

Estas discrepâncias, que perduram ainda no nosso tempo, surgiram quando as delegações regressaram aos seus respectivos países.

A definição arreligiosa do “Grande Arquiteto do Universo” desagradou os Supremos Conselhos anglo-saxónicos que estavam agarrados à sua concepção TEÍSTA.

A definição de "Grande Arquiteto do Universo", aprovada por unanimidade no Convento de Lausanne, encontra-se no quadro conceitual do "deísmo filosófico", tem uma intenção claramente integradora (não exclusiva) e é absolutamente respeitosa com a liberdade de consciência de cada maçom.

Atualmente, os maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) ligados ao Convento de Lausanne têm o direito e o dever de interpretar, com absoluta liberdade, este símbolo maçônico fundamental.

A nível internacional, a obediência maçônica que lidera esta concepção Deista é a Grande Loja da França.

E na maçonaria espanhola destaca-se nesta linha de pensamento maçônico a Grande Logia das Canárias, obediência que mantém uma relação reforçada e privilegiada de amizade com a Grande Logia da França, denominada por meio do que é conhecido como o “Tratado Escocista”.

NOTAS
1. - A presente entrada é uma reprodução escrita da palestra "Maçonaria, regularidade, deísmo e teísmo" ministrada por Carlos Berástegui Afonso em 24 de outubro de 2023 por ocasião da inauguração da exposição "A eterna luz da maçonaria" na Biblioteca Municipal Central de Santa Cruz de Tenerife.
2. - Para a elaboração desta entrada e do texto da referida palestra, foram utilizadas duas fontes básicas: um artigo do historiador Kipling (n.s.) que será publicado no próximo livro do I Centenário da Grande Logia das Canárias, A regularidade maçônica, um pretexto para a exclusão em a busca da hegemonia; e um artigo sobre "maçonaria, regularidade, deísmo e teísmo", do médico e historiador Pablo Bahillo Redondo que também será publicado nesse livro. A ambos, um eterno agradecimento.

(Fonte: website Grande Loja das Canárias. )

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