Se se quisesse compreender a Alquimia
sem ter penetrado primeiro
na natureza do homem,
acabaria inevitavelmente confundindo símbolos com metais,
sinais com substâncias e
fornos com laboratórios de pedra.
A tradição Rosacruz resolveu esse equívoco desde muito cedo: a alquimia não é um ofício exterior, mas um ofício interior.
O mundo visível serve de espelho, não de campo de operações, quem procura ouro fora de si mesmo ignora que o único metal que requer transmutação é a sua própria vontade.
Não foi por acaso que a Rosacruz herdou parte da linguagem hermética — o cadinho, o fogo secreto, o mercúrio da vida, o sal da terra, o enxofre ígneo —, mas ao herdá-lo despojou-o de literalidades.
O mercúrio deixou de ser um líquido prateado para se tornar
a mobilidade da alma;
o sal deixou de ser cristal para se
tornar raiz de permanência;
o enxofre deixou de ser substância para se tornar impulso.
Sob essa operação silenciosa, os símbolos mudaram de estado: a alquimia passou de química para psicurgia (do grego psique, alma, e ergon, obra) e da psicurgia para teologia viva do coração.
A Alquimia Interior Rosacruz parte de uma tese simples: o homem é um composto em desordem.
Não devemos condená-lo por isso; assim como o metal impuro não é culpado da sua impureza, o homem não é culpado da sua queda.
Mas aí intervém o elemento decisivo: o metal não transforma ouro por si só, precisa de fogo.
Na doutrina Rosacruz,
esse fogo não se sopra com foles
nem se alimenta com carvão;
é o Fogo do Verbo,
a radiação da Palavra viva
que age sobre a alma
quando esta cessa de resistir,
daí nasce a principal distinção
entre fogo comum e fogo secreto.
O primeiro aquece, o segundo transfigura.
• Fogo comum é esforço, disciplina, estudo, trabalho humano: necessário, mas
insuficiente.
• Fogo secreto é graça: não pode ser exigido, apenas recebido.
Aqui reside a alquimia:
na articulação correta de ambos.
Sem esforço não há vaso;
sem graça não há ouro.
Primeiro constrói o copo,
a segunda enche.
O processo alquímico interior é geralmente descrito em três grandes fases pelos mestres herméticos, e a tradição rosacruz adotou-as em chave interior:
• Nigredo,
• Albedo
• Rubedo.
A linguagem é arcaica, mas a experiência é atual.
O Nigredo não é trevo cosmológico, mas sim verificação da própria sombra, não se trata de praticar introspecção psicológica, mas de contemplar sem máscaras os movimentos ocultos da vontade inferior: a busca pelo poder, a vaidade do conhecimento, o desejo de ser visto, o medo de desaparecer. Lá se cozinha a primeira dor do operador: descobrir que a queda não é metáfora, mas condição.
O Albedo não é branco físico, mas purificação, nada aqui é lavado com água; a
purificação opera por renúncia, retificação e silêncio. A vontade deixa de se empurrar e permite que outra Vontade respire dentro dela, não se renuncia ao mundo, renuncia-se à apropriação do mundo. O operador aprende que conhecimento sem pureza é veneno lento, e que a busca espiritual que se alimenta de orgulho é pior que a ignorância.
La Rubedo é o vermelhidão, mas não o do sangue mortal, mas o do fogo que desperta no coração quando o Nome se instala, a tradição Rosacruz o nomeia sem nomear, porque nenhuma palavra humana esgota esse fenômeno. O Cristo interior — se quiser usar a linguagem dos teósofos cristãos — não desce como autoridade, mas como impulso puro. Sua aparição não produz exaltação emocional, mas ordem silenciosa; a alma deixa de se mover por reação e começa a se mover por irradiação. Assim se compreende a frase que gerações repetiram sem plenamente compreendê-la: “A obra é uma só, mas tem três momentos”.
É por isso que a Alquimia Interior nunca foi conhecimento para massificar ou impressionar com discursos.
Exige operador, exige vaso, exige fogo, a leitura serve, a prática ajuda, mas a transformação acontece onde o livro não chega, há uma parte do processo que consiste em estudar o símbolo, mas há outra parte que consiste em deixar-se estudar por ele.
A Rosacruz nunca reduziu a alquimia a moralismo, o objetivo não é tornar-se “boa pessoa” no sentido vulgar do termo.
Gentileza sem transfiguração é insuficiente para a Obra. O fim não é o caráter melhorado, mas o novo Homem.
Caráter muda como consequência, não como meta. O objetivo — se você pode falar assim — é a reintegração: voltar a estar alinhado com a Ordem que antecede o mundo.
Por isso o alquimista interior
opera sobre si mesmo
com uma mistura rara de rigor e humildade.
Rigor, porque não há concessões às desculpas do ego, humildade, porque sabe que nenhuma iluminação virá da sua própria força, é essa tensão que evita tanto o voluntarismo quanto o quietismo, o operador trabalha como se tudo dependesse dele e espera como se tudo dependesse do Pare.
Assim concebida, a alquimia Rosacruz não aspira a produzir génios esotéricos, nem taumaturgos nem visionários; aspira a produzir homens transparentes. Esse é o ouro.
O ouro não brilha para si mesmo, brilha porque sua natureza é deixar a luz passar sem ofuscar, aí conclui a Obra e começa o Ofício:
quando o homem deixa de ser obstáculo para se tornar instrumento.
Scintum
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