Dos mais recentes contributos no domínio da historiografia do Século das Luzes ressalta, como denominador comum, a opinião consensual de que o século XVIII não poderá ser bem compreendido, se a sua abordagem não integrar o fenômeno Maçônico.
A Maçonaria, como forma de sociabilidade, constituiu-se nesta época como verdadeiro laboratório de ideias, contribuindo para a difusão e, interiorização de conceitos de igualdade, fraternidade, virtude e, cosmopolitanismo, que influenciaram a verdadeira revolução de mentalidades operada neste século, responsável pelo advento das correntes filosóficas que estão na base do atual pensamento democrático e republicano.
Insere-se neste aspecto a questão da Iniciação Feminina, que surgiu por volta de 1740, na França, através da pratica do Rito de Adoção.
Vários trabalhos de investigação, alguns dos quais muito recentes, têm vindo a revelar aspectos desconhecidos relativamente a esta problemática, abrindo novas perspectivas sobre a Maçonaria Feminina do século XVIII.
Muitas das opiniões sedimentadas nos últimos dois séculos relativamente ao Rito de Adoção, que fundamentaram a construção da vulgata de que o mesmo não foi mais do que uma sub-maçonaria, inventada pelos Irmãos da época, para preservarem uma forma de sociabilidade apenas masculina, encontra-se hoje muito contestada.
Os historiadores mais recentes tendem, pelo contrario, a considerar as Lojas de Adoção do séc. XVIII como uma forma de feminismo “Avant la lettre”.
Muitas das fontes que ajudaram a construir esta ideia feita baseiam-se em afirmações de autores maçônicos da época, entre os quais se dividem as opiniões, no que concerne ao valor iniciático do Rito de Adoção, predominando uma tendência para o ceticismo.
Neste contexto se enquadram as declarações de Tschoudy, que entendia esta forma de fazer Maçonaria como sendo “uma agradável bagatela”, ou de Jouaust que a apelidava de “inovação graciosa” e, de “inocente recreação”.
Outros autores, como Thory, levaram o seu ceticismo mais longe escrevendo, em 1812, que “A Maçonaria das Senhoras, como a dos Homens, teve os seus Ritos diversos; o fim principal destas associações foi quase constantemente o mesmo em todas as Lojas: Bailes, concertos, festins, atos de beneficência, declarações de estima e de afetos formaram geralmente a base dos trabalhos”.
Estudos desenvolvidos nos últimos anos, baseados sobretudo na análise dos rituais do Rito de Adoção e, nas Atas dos Trabalhos das Lojas, contradizem radicalmente estas opiniões.
Quando se aprofunda a exegese dos textos dos manuscritos dos rituais do séc. XVIII, emerge uma construção simbólica bastante diferente da generalizadamente utilizada nas Lojas estritamente masculinas, baseada em temas retirados do Antigo Testamento, mais precisamente do Livro da Gênese.
Estes rituais, que impressionam pela sua riqueza, respeitam integralmente as formas e, as regras maçônicas, revestindo-se de um profundo sentido iniciático e esotérico, onde aos mitos retirados da Bíblia se misturam sincretismos alquímicos.
O Rito comporta uma Iniciação, no Grau de Aprendiz, que obedece à mesma estrutura geral dos Ritos estritamente masculinos, na qual a recipiendária depois de passar por uma fase de separação, numa câmara de preparação, é vendada e despojada dos “metais”, realiza viagens, assume um compromisso, recebe a Luz e, depois de revestida com os respectivos paramentos, recebe a comunicação dos segredos.
Os Graus subsequentes, de Companheira e de Mestra, complementam o primeiro, desvendando progressivamente o sentido do Rito, que busca o aperfeiçoamento das Irmãs através da Amizade e da Fraternidade, assentes na prática das virtudes.
O ponto chave deste percurso iniciático centrava-se, no séc. XVIII, na recepção no segundo Grau, no qual a Loja simbolizava o Jardim do Éden.
Nesta cerimônia, a Loja era decorada com uma pequena mesa coberta com um pano negro, no qual se encontravam representadas lágrimas e, sobre o qual se dispunha uma caveira.
Em alguns rituais esta imagem da morte era enfatizada, substituindo-se a mesa por um esqueleto.
Sobre o trono do Venerável colocava-se uma estrela iluminada, que simbolizava a Vida.
A recipiendária depois de introduzida numa câmara de preparação, era vendada e conduzida ao Templo.
A cerimônia iniciava-se pela prova do fogo, na qual a Aprendiz era conduzida numa deambulação em torno de uma terrina cheia de aguardente em chamas.
Após ter sido provada, a recipiendária era desvendada, fazendo-a voltar-se para contemplar a Morte, visão esta seguida de uma viagem para a Vida, materializada por nova volta sobre si mesma, de modo a ficar de face com a Estrela da Vida.
A Aprendiz deslocava-se então até ao Venerável, que lhe dava para comer uma maçã, referindo-lhe que a mesma lhe daria o conhecimento do Bem e do Mal.
Finalmente, após o compromisso, eram comunicados à recipiendária os segredos do Grau, explicando-lhe que a Árvore, representada no Painel de Loja, simbolizava a violência das paixões humanas, a qual só poderia ser detida tornando-se Maçom, e praticando a Fraternidade e, as Virtudes inerentes à sua condição de Iniciada.
Face à culpabilização tradicional da Mulher na Queda do Paraíso, muito presente na cultura cristã dos séculos anteriores, poderá parecer enigmática a escolha da sedução de Eva pela serpente, como tema central do Rito de Adoção.
A resposta, contudo, representa uma sutileza que faz do ritual deste Rito uma verdadeira obra prima de sentido esotérico.
No ritual de Adoção, a recipiendária é introduzida num “Paraíso Terrestre” no qual não lhe é proibido comer a maçã, pelo contrário esta lhe é oferecida pelo Venerável, que à semelhança do que se verifica na maior parte dos rituais do séc. XVIII, simboliza Deus.
Algumas versões dão ainda uma nova chave para reforçar esta ideia, ao incluírem a expressão “Lamma Zabatany” como palavra de passe, tratando-se esta da ultima exclamação atribuída a Jesus Cristo, imediatamente antes da sua morte na cruz.
Temos pois, uma inversão completa da história da Genesis, sendo Eva, no Rito de Adoção, equiparada a Jesus Cristo, no seu sacrifício supremo, situação esta ainda reforçada, em alguns rituais, pelo fato de a nova Companheira ser sentada à direita do Venerável, ou seja à direita do Pai.
Assim, para Eva, comer do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal não é um gesto ditado pela curiosidade, como na Genesis, mas pelo contrário um sacrifício para salvar a Humanidade da Ignorância.
É aceitando as consequências deste ato (materializadas pela imagem da morte), que o caminho da virtude se lhe torna visível, sendo este o único que a poderá levar à felicidade suprema (ilustrada pela Estrela da Vida). Esta só se poderá obter através de um esforço consciente para levar uma vida virtuosa, em confrontação permanente com as tentações do mundo.
Eva tornava-se assim, para a nova Companheira, no modelo positivo da primeira Mulher Iniciada.
Tudo isto parece ser uma construção demasiado elaborada para o que seria suposto tratar-se apenas de uma mera distração para algumas Damas pertencentes à Alta Sociedade, condição esta generalizada entre as Maçons da época, conforme atestam os nomes que figuram nos Quadros das Lojas de Adoção. A titulo de exemplo, em Sessões da Respetable Loge La Candeur, encontra-se registada a presença das Princesas de Lamballe, de Carignan, das Duquesas de Chartres, de Bourbon, de Rochechouart, de Loménie, de Nicolai, das Marquesas de Rochambeau, de Béthisy, de Fancour, entre muitos outros nomes de Damas da Alta Nobreza.
Estudos recentes, desenvolvidos em especial por Jan Snoek, da Universidade de Heidelberg, levantaram uma ponta do véu, no que concerne a este mistério.
Muito embora o Rito de Adoção tenha sido reconhecido e, regulamentado pelo Grande Oriente de França em 1774, assumindo então a forma ao qual se encontra correntemente associado, na qual as Lojas deste tipo se encontravam inevitavelmente sempre subordinadas a uma Oficina masculina, tinham as suas Sessões obrigatoriamente presididas pelo Venerável Mestre da mesma e, iniciavam apenas mulheres, existem registos que comprovam o inicio da sua pratica em época anterior, próxima de meados da década de quarenta, tais como os constantes de Atas da Loja L’Anglaise de Bordeus (1746), ou da Loja Saint Julien, de Brioude (1747).
Segundo Snoek, o termo Adoção já era utilizado pela Maçonaria Inglesa, na segunda metade do séc. XVII, como sinônimo de recepção.
Como tal, este investigador defende que o conceito de Loja de Adoção poderá ter sido importado daí, significando uma Loja na qual se procedia à Iniciação de profanos, certamente masculinos.
O fato de alguns dos catecismos dos primeiros Rituais de Adoção evidenciarem que os mesmos serviam para iniciar recipiendários de ambos os sexos leva a crer que as primeiras Lojas que receberam mulheres eram Oficinas masculinas, subsistido todavia o enigma quanto à origem destes rituais, tão diferentes da prática corrente.
A chave do “puzzle” parece encontrar-se na exposição francesa “Le Parfait Maçon”, de 1744.
Esta publicação desvenda um sistema em quatro graus, destinado a Homens, no qual o conteúdo dos seus dois primeiros graus engloba todo o corpo temático do Rito de Adoção.
A origem deste sistema parece sobressair da primeira pergunta do catecismo do seu grau de Mestre:
• P: Sois Mestre Maçon ?
• R: O meu nome é Harodim
Harodim, ou Príncipe da Maçonaria é o nome de uma Tradição Maçônica praticada durante a primeira metade do séc. XVIII em Londres e, no Norte de Inglaterra, em meios Jacobitas, paralelamente à Grande Loja dos Modernos.
Pouco se sabe sobre os Rituais desta corrente Maçônica, mas parece confirmado que a introdução da Maçonaria na França se processou em duas vagas, sendo a primeira Jacobita, promovida por Lord Derwenwater e por MacLean e, a segunda Hanoveriana, impulsionada por Desaguliers, Coustous e, pelo Duque de Richmond.
Segundo Snoek, teria sido precisamente nessas primeiras Lojas Stuartistas, nas quais se praticava a tradição Harrodim, que teriam começado por ser iniciados homens, passando depois a ser recebidos homens e mulheres e, finalmente só mulheres.
A tradição Harrodim está também na origem da primeira Ordem de Cavalaria Maçônica conhecida, a Ordem Real da Escócia, o que confere ao Rito de Adoção uma linhagem que justifica o seu alto valor iniciático.
Mesmo que a Iniciação Feminina tenha sido restrita a um estrato social limitado fundamentalmente à aristocracia, a mesma não é alheia a uma alteração de mentalidade, que se encontra plasmada nas evoluções dos conceitos de virtude feminina e, de participação da Mulher na sociedade, que se foram verificando ao longo da segunda metade deste século.
Se na primeira metade do mesmo uma mulher virtuosa era aquela que merecia boa reputação, encontrando-se este conceito associado à virtude da castidade ou, pelo menos à sua aparência, a partir dos anos 50 começou a emergir um novo modelo de “Honnete Femme”.
A ideia de que a virtude feminina é da mesma natureza que a masculina, mas que a Mulher, por se encontrar menos sujeita às paixões, detinha um papel de reserva moral da sociedade e, como tal o dever de exemplo e, de participação social em prol dos outros, emergiu na opinião pública da época, não lhe sendo alheios os valores veiculados nas Lojas Maçônicas.
Estes contribuíram para o desenvolvimento de uma consciência feminina até aí inexistente, alicerçada em laços de Fraternidade.
Não é, pois, de estranhar que uma Maçom tenha, em 1782, referido numa Sessão de Loja de Adoção, aos seus Irmãos e Irmãs, que “tal como não existe distinção sexual para a alma, também não existe distinção sexual para as virtudes”.
A revolução francesa de 1789 veio a dar uma nova dimensão e, relevância ao debate sobre o papel social e, politico das mulheres, passando a encontrar-se posições claramente feministas entre alguns homens, muitos deles Maçons.
Os Ritos Maçônicos são, essencialmente, ferramentas simbólicas, que possibilitam a quem os pratica trabalhar progressivamente a sua Pedra Bruta, interiorizando valores que lhe permitam, no mundo profano, irradiar a Luz recebida em Loja, para proveito da Humanidade.
No Rito de Adoção, com todas as suas particularidades e, condicionamentos, não deixou de cumprir estes desideratos.
As nossas Irmãs das Lojas de Adoção do séc. XVIII foram, na realidade, Maçons de parte inteira e, este Rito, dentro do contexto da época, contribuiu para o desenvolvimento de uma Fraternidade Feminina e, para uma primeira consciencialização de uma desigualdade até aí aceita como natural.
Graças ao Rito de Adoção, a corrente Maçônica Feminina mergulha as suas raízes no séc. XVIII, constituindo uma aberração que, em pleno séc. XXI, ainda persistam culturas para as quais as ideias do Abade Rangeard seriam revolucionárias.
Subverter esta realidade continua sendo um desafio, no Aqui e Agora, das Maçonarias contemporâneas, na sua demanda por uma Humanidade mais Justa e, mais Fraterna, assentada em dois Polos complementares, equitativamente equilibrados.
Joaquim Grave dos Santos-MM
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