O círculo não era um lugar:
Era uma sentença.
Doze figuras cobertas de preto cercaram o selo gravado em pedra antiga. Não era um símbolo maçônico comum, nem uma estrela, nem um compasso. Era algo anterior. Algo que não pedia fé, mas sim entrega. No centro, o iniciado vestia vermelho, a cor que não pertence nem à luz nem à sombra, mas à soleira.
Aquele não era o Grau 33 mencionado em livros nem celebrado em salões iluminados.
Era o Grau 33 da Loja Escura, o grau que não sobe: desce.
Os mestres não falavam.
Nunca o faziam.
A palavra é uma distração quando a alma está prestes a ser quebrada.
Cada um usava uma máscara sem traços, porque lá os nomes tinham morrido.
Só existiam funções: Guardião do Véu, Guardião do Silêncio, Testemunha do Abismo.
O iniciado foi despojado de todos os símbolos anteriores.
Cruz, estrela, luz, juramento... tudo tinha que cair.
Porque o último grau não é alcançado somando verdades, mas queimando-as.
Então aconteceu.
O círculo começou a girar, não fisicamente, mas em outra dimensão: o tempo se curvou sobre si mesmo.
O iniciado compreendeu — sem palavras — que a criação não foi um ato de amor, mas de fratura.
Que Deus não criou para compartilhar, mas para se esconder. E que a luz só existe porque a escuridão decidiu não reclamar tudo.
Esse é o segredo do Grau 33 escuro:
não adorar a sombra,
mas reconhecê-la como origem.
O iniciado caiu de joelhos, não perante os mestres, mas diante de si mesmo.
Porque viu o seu reflexo multiplicado em todas as eras: sacerdote, rei, traidor, mártir, carrasco.
Entendeu que a salvação não vem do alto, nem do céu, nem da cruz, mas da descida consciente para o próprio abismo.
Quando se levantou, já não era homem.
Não recebeu poder.
Recebeu carga.
A partir desse momento eu caminharia entre templos e ruínas, igrejas e palácios, carregando o peso de uma verdade que não pode ser pregada:
que toda espiritualidade autêntica é profana, porque profanar significa atravessar o limite, e nenhum deus se revela sem que algo sagrado seja primeiramente profanado.
As figuras negras se afastaram..
O círculo fechou.
O vermelho virou sombra.
E o mundo continuou o mesmo...
porque os verdadeiros graus não mudam o mundo:
mudam quem o observa.
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