Pesquisando a Maçonaria no século XXI: Oportunidades e desafios


A pesquisa acadêmica maçônica hoje atingiu um ponto de virada. Realizada por décadas por acadêmicos pertencentes à ordem maçônica ou filosoficamente próximos a ela, a erudição maçônica buscou continuamente legitimidade da universidade e das autoridades acadêmicas. 

Os centros de pesquisa, cátedras, seminários e inscrições para projetos internacionais de alto nível se multiplicaram, muitas vezes com o apoio de Grandes Lojas maçônicas. 

Paralelamente, essas obediências criaram, acolheram ou financiaram seus próprios institutos de pesquisa ou centros de conferências. 

Eles entendem a importância de sua herança: materiais de arquivo, fotos e artefatos representaram um poderoso apoio para a organização, ilustrado pelas exposições artísticas públicas muitas vezes notáveis.

No entanto, a avaliação permanece mista. 

Os estudos maçônicos permanecem isolados e ainda sofrem de um problema de reconhecimento.



Comentários

  1. Hoje em dia, os estudos maçônicos sofrem de um paradoxo. Eles estão no centro da pesquisa sobre sociabilidade e espaço público, mas pouco se beneficiam dessa posição. Georg Simmel, Jürgen Habermas, Maurice Agulhon (Penitentes e maçons, e O círculo na França burguesa do mesmo autor), Daniel Roche, Franco Venturi, Margaret Jacob estavam todos interessados na Loja Maçônica como um observatório e um laboratório de espaço público. Este trabalho pioneiro foi em grande parte produzido por pesquisadores que não pertenciam ao “meio” de pesquisa maçônica e para os quais a Maçonaria não ocupava uma posição central em sua investigação inicial. Esses pesquisadores abriram, exploraram e fecharam novamente os arquivos das lojas a partir da perspectiva de seus próprios objetos e programas de investigação. Eles não ficaram presos na história administrativa da ordem. Souberam, ao contrário, situar de forma convincente o vínculo maçônico, seus atores, suas estratégias, seus discursos e representações em seu ambiente social, cultural, familiar, profissional e político. Mas, por essas mesmas razões, seu trabalho teve apenas um impacto limitado na própria pesquisa maçônica. Esses autores não modificaram consistentemente a percepção da sociabilidade maçônica e suas apostas dentro da comunidade de estudiosos maçons. Em vez de se beneficiar dessa abertura para se integrar totalmente à pesquisa em andamento na história social e cultural e apresentar suas próprias contribuições, a pesquisa maçônica se isolou e se trancou no beco sem saída da “maconologia”. Isso é lamentável, pois a relevância e o significado da história maçônica só podem ser totalmente compreendidos quando articulados em um contexto mais amplo. Em outras palavras, a Maçonaria é um “fenômeno social completo”. Para muitos maçons, existe a suposição incorreta de que apenas os maçons podem escrever a história da ordem, porque se consideram os únicos capazes de compreender plenamente seu significado e seu projeto. No entanto, este não é o caso em outros campos: a maior parte da história religiosa da era medieval ou do início da modernidade, por exemplo, não é feita por clérigos e a maior parte da história política não se reduz ao estudo de facções políticas.

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  2. Da mesma forma, não se espera que um especialista em guerra submarina embarque na frota russa do Mar Branco ou que um historiador do contrabando se torne um cruzador clandestino de fronteiras.

    Se quisermos coordenar a pesquisa maçônica que ainda é muitas vezes conduzida de maneira dispersa, parece-me que é urgente lançar um vasto programa coletivo e verdadeiramente acadêmico para alimentar um banco de dados prosopográfico dos maçons na Europa e no mundo durante os séculos XVIII e XIX. Esta base de dados colaborativa e acessível online permitirá mostrar concretamente à comunidade acadêmica que nenhuma história do Iluminismo ou das elites europeias e coloniais é possível sem ter em conta a pertença maçônica de tantos dos seus atores. Será necessário adotar o que se chama na história das ciências de “estratégia de generosidade”, ou seja, abrir nossos arquivos, oferecer nossa experiência, mudar opiniões, acabar com a cautela e as perspectivas introvertidas e mostrar a todos o que um estudo maçônico bem conduzido pode trazer para a mesa mais ampla da história em grande escala.

    O estudo das redes sociais e das trajetórias individuais dos atores sociais no passado é hoje um verdadeiro sucesso. Constitui outra oportunidade notável para os estudos maçônicos. O surgimento da pesquisa sobre as redes sociais e, mais amplamente, a renovação da história social tornam possível considerar outra abordagem da sociabilidade maçônica, das trajetórias individuais e das relações interpessoais. Hoje, a pesquisa analisa as relações interpessoais sem tomá-las separadamente, mas considerando-as como parte integrante de uma teia de relações: o estudo de sua grade permite ao historiador apreender a extensão do comportamento possível. Da mesma forma, a microstória que visa “não estudar o sujeito social como um objeto dotado de propriedades, mas como um conjunto de inter-relações móveis dentro de configurações em constante adaptação”, permite situar o indivíduo – e não a instituição como todos nós fizemos – no centro da sociabilidade. Listas de membros e declarações proferidas em assembleias maçônicas não são mais as únicas fontes disponíveis para o historiador maçônico. Precisamos levar em conta os “documentos do ego” dos maçons – seus diários, autobiografias, cartas particulares e jornais pessoais – pois eles possibilitam compreender as trajetórias maçônicas individuais e os espaços sociais nos quais os maçons estabeleceram sua rede relacional, bem como o ambiente social, familiar, religioso e profissional dos maçons. Espera-se que, compreendendo melhor as escolhas individuais dos maçons no passado, seja possível conciliar tradições historiográficas que muitas vezes desconhecem umas das outras: a história das ideias, por um lado, e a história social das práticas culturais, por outro lado, que no caso dos estudos do século XVIII em particular se ignoram com demasiada frequência, que devem ser estreitamente articulados. Nos campos da história moderna e contemporânea, os estudos maçônicos também devem proceder ao seu próprio aggiornamento, integrando os métodos e resultados da história cultural da política. Deve também embarcar em uma história abrangente das relações maçônicas internacionais, como a que o Dr. Joachim Berger, editor da “European History Online”, está realizando na Universidade de Mainz, dentro do projeto sobre o Internacionalismo Maçônico (c. 1850-c. 1930).

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