Um dos equívocos mais frequentes entre os neófitos na maçonaria reside na crença de que a iniciação por si só desencadeia uma transformação imediata, como se o véu do templo se rasgasse instantaneamente e uma mudança alquímica invadisse o seu ser.
Essa ilusão poderia se materializar se houvesse um trabalho prévio de psico-transformação: anos dedicados a escolas esotéricas, uma vida alinhada com a pureza mística desde o nascimento até o limiar da loja.
No entanto, poucos maçons se encaixam neste arquétipo de donos absolutos do seu destino; a maioria de nós deve polir nossa pedra bruta com esforço tenaz, corrigindo falhas enraizadas antes de entender o processo inicático e subir ao sublime grau de Mestre Maçom, onde o esquadrão e o compasso se tornam ferramentas da alma.
Para nos elevarmos, devemos primeiro mapear nossas capacidades, fortalecê-las como o arquiteto projeta o Templo de Salomão e diagnosticar os vícios que minam nossa eficácia vital.
Dos mistérios da autêntica iniciação maçônica emerge um Novo Homem, um construtor ativo que contribui para o advento de uma Nova Ordem: não um regime mundano, mas um equilíbrio cósmico onde a luz dissipa as sombras do caos.
Em planos superiores, este Mistério já está
gestando esses Novos Homens — vislumbres deles entram na nossa era de transição — condição sine qua non para que a Nova Era se inaugure com harmonia.
A cultura da razão pura e prática foi o fim da transformação do homem antigo através da iniciação, como testemunham as obras dos grandes filósofos épicos.
Hoje, superado esse estádio, o alvo se eleva: um contato direto com o Eu real, essa centelha divina, através da inspiração celestial que flui como o rio Jordão no batismo simbólico.
Em ambos os níveis — antigo e moderno — a iniciação exige um trabalho preparatório árduo, uma metamorfose profunda que remodela a consciência do Eu, como o aprendiz na Câmara de Reflexões confronta sua própria mortalidade para renascer.
Essênios, precursores gnósticos e os Doutores da Igreja Ecumênica Primitiva foram iniciados no Mistério da Consumação, assim como os santos gnósticos históricos.
Hoje, uma elite maçônica é forjada para assumir a responsabilidade de instaurar a Nova Ordem na Terra: homens nascidos duas vezes, arquitetos interiores que erguem uma sociedade renovada.
Isto não é surpreendente: o avanço vertiginoso da técnica encurralou a humanidade num impasse de poder descontrolado, revelando a impotência do homem religioso — dono do status quo — para organizar a vida nestas condições esmagadoras.
A paz verdadeira, desejada por todos e não apenas equilíbrio do terror, escapa-lhes.
Somente os iniciados maçons, elevados ao nível do Eu real de essência divina, resolverão esses enigmas, reposicionando as coisas novas em seus novos sitiais.
Não é em vão que a iniciação moderna — no seu sentido esotérico — transcende a mera "cerimónia": não se limita a rituais humanos no plano material.
O iniciado, cidadão pré-figurado da Nova Ordem, emerge do segundo nascimento libertado da obediência ao Absoluto relativo, recebido como filho pródigo na Aliança do Amor, onde Hiram Abiff ressuscita como Primogênito.
A cerimônia persiste, mas no plano suprasensorial: confirma a nova dignidade do maçom, forjada por um trabalho que o coloca diante da Graça divina, pressionando de dentro como fogo na forja.
Esta iniciação não ocorre no visível, pois transita o espírito do reino deste mundo para o que não é deste mundo, acessando as notas superiores da Segunda Oitava Cósmica, a Nova Ordem Harmônica.
No entanto, nem todos experimentam essa transformação com a mesma intensidade.
Alguns maçons surgem da iniciação indemnes, sem que o ritual choque sua psique profunda: por quê?
Porque não têm preparação; sua pedra bruta permanece áspera, obstruída por egos não dissolvidos, impurezas acumuladas ou uma vida profana que dilui o fogo sagrado.
A iniciação age como espelho: reflete o que já existe dentro de si.
Se não houver solo fértil — cultivado por disciplina prévia, meditação ou estudo esotérico —, o ritual torna-se mera formalidade, um véu que não se rasga.
Em vez disso, para aqueles que trabalharam o seu Eu inferior esperançoso em transformá-lo em Luz, a iniciação provoca um terremoto psíquico: um despertar do Eu superior, onde a dualidade do bem e do mal se resolve em unidade, libertando energias kundalínicas que remodelam a mente, o coração e o espírito.
É um renascimento, um "nascer de novo" que purga traumas ancestrais, eleva a vibração e alinha o maçom com o Grande Arquiteto do Universo.
Gnósticos modernos enfatizam que a iniciação não é um rito vazio: é a "morte do ego" e o nascimento do "Homem Solar".
Estes gnósticos comparam a iniciação maçônica com a dissolução de defeitos psicológicos, semelhante ao "nascer de novo" bíblico (João 3:3: "Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus").
Para o Gnóstico, se a iniciação maçônica não impacta, é porque o iniciado não "matou" seus egos inferiores; só então surge o verdadeiro maçom, construtor do Templo Interior.
P.S. Ouspensky, discípulo de Gurdjieff, em Fragmentos de um Ensino Desconhecido, descreve a transformação como um "despertar consciente" na Quarta Estrada.
A iniciação maçônica, para ele, é um choque que eleva a consciência do "homem máquina" ao "homem equilibrado".
Se não impacta, é por "amortecedores" psicológicos que amortecem a mudança; o renascimento (como em João 3:5-7: "nascer da água e do Espírito") exige esforço voluntário, não passividade.
J.G. Bennett, sucessor de Gurdjieff, em O Homem Dramático, fala de níveis de consciência: a iniciação maçônica catalisa um salto do "eu reagente" para o "eu criador", integrando energias superiores.
Não choca aqueles que permanecem em estados inferiores por falta de "trabalho interior"; evoca o "nascer de novo" como um renascimento cósmico, onde o maçom se alinha com a "Inteligência Criativa", semelhante ao Espírito Santo na Bíblia.
Dion Fortune, ocultista britânica em A Doutrina Cósmica, vê a iniciação como "contato com os Mestres Interiores" e o despertar do "eu Superior". Se não transformar, é por "bloqueios astrais" ou impurezas cármicas; compare com o renascimento bíblico (João 3:3-7), onde o iniciado maçom "nasce de novo" nos Mistérios, emergindo como guardião da Nova Ordem, fundindo o material com o divino.
Do livro da Lei ou da Bíblia, em João 3:3-7, Jesus fala a Nicodemos sobre o "nascer de novo": um renascimento espiritual que transcende o carnal, análogo à iniciação maçônica.
Não é automático; requer fé e purificação, como o maçom na Câmara de Reflexões morre simbolicamente para ressuscitar na luz. Se não chocar, é por causa de corações endurecidos (como em Ezequiel 36:26: "Tirarei o coração de pedra"), impedindo o fluxo da Graça divina.
Quanto às cerimônias de admissão na maçonaria contemporânea, deixemos aos especialistas sua análise esotérica.
A Ortodoxia Maçônica não reconhece sociedades secretas inicáticas alheias a ela, embora uma literatura recente — não de adversários, mas das próprias sociedades — seja amplamente difundida.
Um ponto chave: no que foi divulgado sobre tradições e rituais maçônicos, a ênfase não recai na herança direta de Hiram Abiff, mas na legada por seus filhos espirituais, os maçons atuais.
As causas históricas disto poderiam ser rastreadas, mas superam o entendimento de outras sociedades que pretendem iniciação efetiva, ignorando que o verdadeiro ritual dinamiza o espírito para a Nova Ordem, não como cerimônia estática, mas como viagem viva do aprendiz ao Mestre, forjando o Templo eterno na alma.
Alcoseri
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