Violência é o câncer do organismo planetário.

 

Se olharmos para a humanidade de uma consciência mais ampla — não política, não nacional, não ideológica, mas verdadeiramente humana — vemos um único corpo vivo.

Nações como órgãos.
Culturas como tecidos.
Pessoas como células.

E em todos os corpos, o conflito existe.

O conflito não é o problema: faz parte do sistema imunológico da vida.

Sem tensão não há crescimento; sem contraste não há aprendizagem.

Como escreveu Heráclito: “A guerra é o pai de todas as coisas”, entendendo a luta como motor do futuro.

Mas a violência não é essa luta criadora.
A violência aparece quando a tensão deixa de procurar equilíbrio e começa a destruir o próprio organismo.

É então que o conflito deixa de ser evolução e se torna patologia.

Como Hannah Arendt avisou: “A violência pode destruir o poder; é absolutamente incapaz de criá-lo”.

O bem e o mal,
de certa forma,
sustentam a dinâmica do mundo.

Um une.
O outro desafia.
Ambos ensinam.

Violência, por outro lado, interrompe.
Não ensina: corta o aprendizado.
Não corrige: arrase o tecido.
Não protege: espalhe o medo.

É por isso que não nasce apenas da maldade individual.

Nasce principalmente da desconexão.

Quando uma pessoa, um grupo ou um sistema deixa de perceber o outro como parte do mesmo corpo humano, a agressão deixa de se sentir como automutilação.

Então surge a brutalidade normalizada. Depois aparece a desumanização.

Depois aparece a máquina fria.
Rousseau escreveu que "o homem nasce bom e a sociedade corrompe-o".

Além da literalidade, há uma intuição profunda: a violência estrutural não surge apenas do indivíduo, mas de sistemas que esqueceram o seu propósito de sustentar a vida.
Hoje vemos guerras, crime, polarização, ódio digital, discursos de extermínio simbólico.

Não são aberrações isoladas.
São sintomas.
Tal como no câncer, o problema visível não é o início do processo: é a consequência de uma desordem prévia na regulação do organismo.
Porque a verdadeira raiz da violência
não é a arma.
Não é ideologia.
Não é a fronteira.

É a crença absoluta na separação.
Quando uma célula acredita que existe para si mesma, invade.
Quando um humano acredita que seu destino não está ligado ao dos outros, ele destrói.

Como escreveu Albert Camus: “A violência é inevitável e injustificável”.

Inevitável enquanto houver medo; injustificável quando esquecemos nossa condição comum.

A humanidade não está em perigo por causa da existência do mal.

Corre perigo quando esquece que compartilha uma vida.
A cura não começa nos tratados.
Começa na consciência.

Porque nenhum corpo se cura
atacando a si mesmo!

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