Antes de tudo, é importante ressaltar que, apesar de não conter nenhum segredo de grau, este artigo tangenciará elementos do terceiro grau e do Real Arco.
Se o leitor ainda fará esses graus e não quer ter nenhuma informação prévia, recomenda-se que se abstenha da leitura.
O Real Arco, ou Arco Real, (do inglês Royal Arch) é talvez o mais peculiar dos graus da Maçonaria, por duas razões.
A primeira, mais conhecida, é a por ser ao mesmo tempo praticado no âmbito da Maçonaria Simbólica e também dos Altos Graus.
A razão é que os Modernos entendiam que a Maçonaria a se restringia três graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Já os Antigos tinham uma visão mais fluida.
Como parte do acordo entre eles, os Artigos da União de 1813 definiram a Maçonaria Simbólica da seguinte forma: “A Maçonaria pura e antiga consiste de apenas três graus, a saber, aqueles de Aprendiz Iniciado, Companheiro de Ofício e Mestre Maçom, incluindo a Ordem Suprema do Sagrado Real Arco.”
A segunda razão pela qual o Real Arco é peculiar é porque existem não menos do que três variações da lenda do Real Arco.
E, ao invés de serem simplesmente visões independentes, elas na realidade trazem bastante luz sobre como o grau se formou.
Como dito por Bernard E. Jones: “As lendas relacionadas a Hiram e ao Real Arco eram porções sobreviventes do folclore do Craft que originalmente continha outras lendas semelhantes.”
Todas elas lidam com o mesmo tema: A redescoberta da Palavra Perdida e dos segredos do grau de Mestre Maçom, que de certa forma servem como um desfecho para o terceiro grau.
Esse Templo estava perdido desde os tempos do dilúvio e teria sido encontrado pelos obreiros do Templo de Salomão.
Essa versão da lenda é praticamente toda maçônica. Embora a Bíblia fale de Enoque e haja uma série de obras do folclore judaico-cristão acerca dele, não há referências ao que é narrado nela.
Essa é versão do Real Arco que aparece registrada no manuscrito Francken de 1783, da Ordem do Real Segredo (vulgo Rito de Perfeição).
Ela é preservada até hoje no grau 13 do Rito Escocês Antigo e Aceito, que a incluiu desde sua concepção.
A lenda se baseia no relato bíblico de 2 Reis 22 que, resumidamente, diz que o rei Josias de Judá contratou carpinteiros, construtores e pedreiros para fazer reparos no Templo, que havia sido profanado por reis anteriores.
O sumo sacerdote Hilquias teria, então, encontrado o Livro da Lei (de Moisés) durante os reparos no Templo. Ele teria entregue o livro ao escriba Safã, que o teria lido perante o rei.
Ao se dar conta de que o povo tinha se desviado dos princípios contidos no Livro da Lei, o rei teria convocado o povo ao arrependimento.
(Segundo historiadores, de fato houve uma reforma religiosa à época do rei Josias em Judá, e essa narrativa é um reflexo desse fato.)
Evidentemente, como de costume, a lenda maçônica atribui outros achados, tais como objetos e segredos de grau, a esse fato.
Essa lenda é praticada até hoje no Real Arco da Irlanda, mesmo após inúmeras tentativas (todas elas frustradas) de introduzir a lenda de Zorobabel naquele país.
Nela, é dito que operários trabalhando na reconstrução do Templo de Jerusalém, promovida por Zorobabel nos tempos do retorno de Judá do cativeiro babilônio, teriam reecontrado a Palavra Perdida e os segredos do grau de Mestre Maçom, preservados pelo rei Salomão.
A narrativa sobre Zorobabel reconstruir o Templo de Jerusalém é bíblica, porém a narrativa da recuperação da Palavra Perdida e dos segredos é exclusivamente maçônica.
A segunda referência surgiria logo depois, também na Irlanda, na obra janeiro de 1743, numa publicação do jornal Faulkner’s Dublin.
Em seguida a isso, há uma referência do grau sendo praticado na Escócia em 1745 em Stirling, na Escócia. (Uma glosa em uma minuta a atribui a 1743, mas sabe-se que é um erro de grafia).
Já a primeira referência ao grau na Inglaterra surgiria quase uma década depois, numa minuta de março de 1752.
Ao que tudo indica, portanto, o grau teria surgido na Irlanda. E isso corrobora com o que parece ter sido o desenvolvimento da lenda em si.
Para efeito de compreensão, será apresentado um resumo extremamente abreviado: Havia lendas judaico-cristãs de muitos séculos que diziam que Enoque, um misterioso personagem bíblico, havia preservado os segredos da humanidade.
As corporações de construtores de ofício adotaram em dado momento a lenda de que Noé teria sido o herdeiro desse conhecimento. E que, após sua morte, esse conhecimento teria se perdido.
O conhecimento então teria sido recuperado por vários sábios ao longo da história, tais como Hermes, Pitágoras, e, em especial, por Besaliel no Tabernáculo de Moisés, depois por Salomão no Templo de Jerusalém. Os manuscritos Cooke (1450) e Graham (1726) atestam para o desenvolvimento da lenda.
Basicamente, o distanciamento entre carpinteiros e pedreiros, com a maior ênfase na Maçonaria para os últimos, mudou o foco da lenda de Hiram para Noé.
De forma análoga, não apenas Noé, como também Enoque, Besalel e outros personagens bíblicos que outrora figuravam nessas lendas foram relegados a segundo plano. Alguns desses, preservados nos chamados altos graus de vários sistemas.
Não é muito claro se, quando o Real Arco foi concebido como grau, a Maçonaria já havia dado a sua guinada na direção de tornar Hiram o protagonista da narrativa, mas o autor deste artigo apostaria que sim.
Assim sendo, a versão mais antiga da Lenda do Real Arco muito provavelmente é aquela que foi preservada na França e que acabou se tornando base do 13º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Razão pela qual o autor entende que, posteriormente, surgiria na Irlanda uma versão na qual a perda dos segredos ocorre após Judá deixar a sua fidelidade.
Talvez, essa variante irlandesa tenha surgido num momento em que a morte de Hiram ainda não havia sido explorada fortemente? Então, faria mais sentido falar da perda dos segredos por conta dos reis iníquos de Judá, que é algo que a Bíblia realmente atesta.
De todo jeito, a lenda de Josias como substituta mais óbvia faz todo o sentido, pois há uma perda e subsequente encontro de algo importante, atestado biblicamente.
Isso porque a Maçonaria viria a desenvolver novos graus, lidando com a reconstrução do Templo de Salomão. O que significaria que qualquer segredo recuperado durante o Primeiro Templo teria se perdido novamente, e isso mais uma vez teria que ser explicado.
(Pode-se perceber um resquício dessa “duplicidade do tema da perda e recuperação” no Rito Escocês Antigo e Aceito, onde no grau 14 a essência da Maçonaria é perdida por corrupção e, por fim, no grau 18, onde uma nova Palavra é proposta em substituição à Palavra Perdida).
Dessa forma, um novo ajuste seria feito na lenda do Real Arco: Não mais a recuperação ocorreria no período de Josias, ainda à época da reforma do Primeiro Templo, mas sim com Zorobabel, à época do Segundo Templo.
Essa terceira lenda, diferentemente das duas anteriores, teria surgido já na Inglaterra, provavelmente no final do século 18.
Felizmente para aqueles que apreciam reconstruções históricas, em virtude do desenvolvimento mais isolado da Maçonaria francesa e da recusa dos irlandeses a adotar a lenda mais padronizada, a história nos deixou rastros e pistas que permitem reconstruí-la.
Além dos argumentos narrativos já apresentados, há registros históricos de que por várias décadas, entre 1829 até o começo da década de 1860, houve tentativas de se introduzir na Irlanda a versão inglesa da lenda do Real Arco.
Por uma série de razões logísticas referentes ao candidato e à cerimônia, que fogem ao escopo deste artigo, essas tentativas foram frustradas.
Ressalte-se ainda o fato de alguns rituais do Real Arco ainda trazerem alusões à lenda de Josias (como o de Iowa, de 1952), apesar da história de Josias não ter qualquer relevância – salvo como mera curiosidade histórica – para o enredo da lenda de Zorobabel.
Evidentemente que nenhum desses elementos é, por si só, suficiente para dizer que a cronologia do desenvolvimento narrativo aqui proposta seja incontestável. Mas, o autor acredita que os indícios são bastante sólidos.
“Em preparação às fundações, conforme somos relatados pelos rabinos judeus, os trabalhadores descobriram uma câmara ou cavidade, apoiada por sete pares de pilares apoiando muitos arcos… Os rabinos acrescentam que Josias, antevendo a destruição do Templo, ordenou os levitas a depositarem a Arca da Aliança nessa câmara, onde foi encontrada pelos homens de Zorobabel. Mas não há fundamento para essa crença; pois se o segredo da câmara fosse conhecido a Josias, teria sido conhecido também por seus predecessores idólatras, que certamente teriam o pilhado… É muito mais provável que, nos anos finais de Salomão, quando ele já tinha quase esquecido Deus, suas visitas a essa câmara cessaram e a entrada sendo curiosamente ocultada entre as cavernas debaixo de seu palácio, o segredo morreu com ele, e a comunicação foi fechada para sempre.”
Considerando que Malcolm C. Duncan era norte-americano e escreveu seu famoso Monitor para a Maçonaria norte-americana, é bem possível que em algum momento a lenda de Josias tenha sido praticada em solo norte-americano, tendo concorrido com a lenda de Zorobabel.
Embora seja possível atribuir tal crítica de Duncan a uma mera coincidência, a contundência e extensão do texto parecem favorecer mais a hipótese de uma preocupação de Duncan com a preservação daquela que ele considerava a prática mais adequada.
O autor conclui que a lenda do Real Arco começa com a ideia do Templo de Enoque encontrado por Salomão, transforma-se na lenda de Josias reencontrando segredos após a idolatria de Judá, para por fim chegar à forma mais popular hoje, dentro da lenda de Zorobabel.
Ainda assim, o autor procurou separar o que é fato histórico daquilo que é opinião pessoal e/ou reconstrução a partir dos eventos indicados.
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