“Nenhuma sociedade pode ser feliz se a maioria dos seus membros for pobre.”

 

Adam Smith nasceu na Escócia em 1723 e passou a maior parte de sua vida acadêmica como professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow.


Quando se fala em Adam Smith, o nome vem acompanhado de conceitos como livre mercado, concorrência e interesse próprio. 


Mas há uma frase do economista escocês que raramente aparece nessas conversas e que contradiz boa parte do que se atribui a ele: “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a maior parte dos seus membros for pobre e miserável.” 


Escrita em A Riqueza das Nações, em 1776, essa sentença revela um pensador muito mais complexo do que o símbolo do capitalismo selvagem que a história convencionou criar. Entender o que ele quis dizer muda completamente a leitura de sua obra e sua relevância para o mundo de hoje.

A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”.
A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”.Imagem gerada por inteligência artificial

Quem foi Adam Smith e por que ele ainda importa?

Adam Smith nasceu na Escócia em 1723 e passou a maior parte de sua vida acadêmica como professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow. 

Figura central da Ilustração escocesa, ele não era apenas economista: era um filósofo profundamente preocupado com a moral, a justiça e o bem-estar humano. 

Suas duas obras mais importantes, A Teoria dos Sentimentos Morais, de 1759, e A Riqueza das Nações, de 1776, formam um sistema de pensamento que só faz sentido quando lido em conjunto, e não de forma isolada.

A influência de Adam Smith é inabarcável. 

Considerado o pai da economia moderna e do liberalismo clássico, suas ideias moldaram a política econômica dos séculos XIX e XX e inspiraram pensadores tão diferentes quanto David Ricardo e Karl Marx. 

O que poucos percebem é que Adam Smith defendeu, ao longo de toda a sua obra, que a prosperidade econômica só é legítima quando conduz a uma sociedade mais justa para a maioria das pessoas, e não apenas para uma elite privilegiada.

Em que contexto Adam Smith escreveu essa frase sobre a pobreza?

A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII de A Riqueza das Nações, intitulado “Dos salários do trabalho”. 

O contexto é preciso: no século XVIII, muitos economistas defendiam a chamada “teoria da utilidade da pobreza”, que argumentava que os salários deveriam ser mantidos baixos porque, se os trabalhadores pobres ganhassem mais, se tornariam “preguiçosos” ou teriam filhos demais. 

Adam Smith escreveu essa passagem exatamente para destruir esse argumento, que ele considerava ao mesmo tempo moralmente repugnante e economicamente equivocado.

Para Adam Smith, quando uma economia cresce, os salários sobem, e isso não é um problema: é o sinal mais claro de que a nação está se tornando genuinamente mais rica. 

Dois pontos centrais sustentam esse raciocínio. 

O primeiro é que a riqueza de uma nação não se mede pelo ouro no cofre do rei, mas pelo padrão de vida de sua população. 

O segundo é o que ele chama de simples equidade: quem alimenta, veste e dá abrigo à sociedade, ou seja, os trabalhadores, tem o direito elementar de estar eles mesmos bem alimentados, bem vestidos e bem alojados.

O que é a mão invisível e como ela se conecta à desigualdade social?

A expressão “mão invisível” é provavelmente o conceito mais citado e mais mal interpretado de toda a obra de Adam Smith. 

Ela aparece apenas uma vez em A Riqueza das Nações e descreve o mecanismo pelo qual o interesse individual de cada agente econômico, ao buscar seu próprio benefício, acaba contribuindo indiretamente para o bem coletivo. 

Esse mecanismo foi transformado, ao longo dos séculos, em uma justificativa para a ausência total de regulação e para a ideia de que o mercado resolve tudo sozinho.

O problema é que esse não era o argumento de Adam Smith

Ele era um crítico severo dos monopólios, da cumplicidade entre governos e grandes comerciantes e da concentração de poder econômico nas mãos de poucos. 

Em A Riqueza das Nações, ele escreveu que “todo para nós e nada para os outros parece ter sido, em todas as épocas do mundo, a vil máxima dos donos da humanidade”. 

Essa frase, muito menos citada do que a da mão invisível, revela o quanto a leitura dominante de sua obra é seletiva e conveniente para quem a usa para justificar a desigualdade social.


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