O Mercúrio ...ou Mar Kurios!

 

O Mercúrio, ou Mar Kurios — o mar do Senhor ou a Substância Soberana — é o ponto de partida absoluto. 

Não é simplesmente um metal ou um planeta, mas a água caótica e luminosa que corre entre os mundos. 

É o solvente universal que dissolve as formas de libertar a essência. 

No Mercúrio, Terra e Espírito não estão separados; são uma única maré de possibilidades onde a causa e o efeito ainda dormem abraçados.

Deste Mar Soberano brota a primeira vibração: a dualidade necessária para que o Universo se reconheça. 

Aqui aparecem Eros e Ánteros, não como deuses distantes, mas como sístole e diástole do coração cósmico.

Eros é o raio que desce, a vontade de manifestar, o desejo que empurra a unidade a dividir-se para que o "eu" encontre o "outro". 

É o impulso que projeta a luz para a densidade da matéria. 

Mas para que este movimento não seja uma queda no vácuo, Ánteros surge como a resposta. 

Ánteros é o amor que corresponde, o caminho de volta, a força que permite que a criatura olhe para o criador e se reconheça nele.

No entanto, para que esta dança seja verdadeira, ela deve ser regida pela Lei Cósmica do Amor com maiúsculas, que é, por natureza, um Amor Indiferente.

Essa "indiferença" não deve ser entendida como desapego frio, mas como um Amor não prisioneiro. 

Amor com maiúsculas é a Mente Suprema que não retém, que não possui e que não julga a forma que toma a substância. 

É um amor que se atreve a soltar. 

Se Eros tentasse acorrentar o que acredita, ou se Anteros forçasse o retorno mais cedo, o universo sufocaria.

Amor não prisioneiro é aquele que permite que a substância única seja fogo, seja pedra ou alma, dando-lhe total liberdade para existir e, finalmente, para desaparecer. 

É a lei que entende que a união máxima só é possível a partir da máxima liberdade. 

Mercúrio, como mediador, nos ensina que para unir a Terra com o Espírito, é preciso ser como a água: fluir sem deixar cicatrizes, estar presente em tudo sem ser apanhado por nada.

No final, a origem um manifesta-se neste soltar constante. 

A dissolução final do pequeno ego (imaturidade) não é uma perda, mas o ato supremo de liberdade onde o mar do Senhor recupera suas águas, tendo aprendido que o Amor mais puro é aquele que, tendo dado tudo de si, nada reclama para si.




A.H.

Comentários