Quando os olhos veem, mas o espírito não compreende.
A cegueira da consciência.
Desde o momento em que o homem abriu os olhos para o mundo, ele acreditou que ver era compreender.
No entanto, a experiência dos séculos mostra-nos que não há maior ilusão do que essa.
Nossos olhos podem contemplar uma realidade e, ainda assim, nossa mente pode interpretá-la de forma errada.
Podemos olhar para um semelhante e não perceber a sua humanidade; observar uma ideia e não entender a sua essência; contemplar a verdade e rejeitá-la porque desafia as nossas crenças.
A Maçonaria nos ensina que a verdadeira visão não pertence aos olhos físicos, mas à consciência iluminada.
De pouco adianta ter uma vista perfeita se o coração permanecer fechado e a razão acorrentada pelo preconceito.
Muitas das agressões que dividem a humanidade nascem precisamente desta incapacidade de compreender o que se apresenta diante de nós.
O homem teme o que não entende.
E aquilo que ele teme, rejeita.
O que ele rejeita, ele combate.
Assim, a ignorância se transforma em intolerância e intolerância em violência.
Quantas guerras foram travadas porque alguns homens foram incapazes de entender as crenças dos outros?
Quantas famílias se fracturaram porque ninguém quis ouvir antes de julgar?
Quantas vezes condenamos uma pessoa sem saber a história que carrega nos ombros?
A pedra bruta do Aprendiz representa precisamente essa condição inicial do ser humano.
Chegamos ao templo cheios de opiniões, preconceitos e certezas absolutas.
Nós acreditamos conhecer a realidade porque a vimos com nossos próprios olhos.
No entanto, o trabalho maçônico consiste em descobrir que a realidade possui múltiplos rostos, como as inúmeras facetas de uma pedra ainda não polida.
O profano costuma confundir diferença com ameaça.
O pedreiro aprende a entender a diferença como uma oportunidade de crescimento.
Onde o ignorante vê um inimigo, o iniciado procura ver um irmão.
Onde outros encontram motivos para a divisão, o construtor procura pontes.
A intolerância é filha da soberba intelectual.
Nasce quando acreditamos que nossa visão é a única válida e que tudo que não coincide com ela deve ser corrigido, silenciado ou destruído.
Em vez disso, tolerância não implica renunciar às nossas convicções, mas reconhecer que a verdade absoluta não pertence a nenhum homem e que todos somos aprendizes na busca da Luz.
O símbolo da venda que cobria nossos olhos antes da iniciação encerra um profundo ensinamento.
Não fomos privados da nossa vista para nos punir, mas para nos fazer compreender que durante grande parte da nossa vida tínhamos ficado cegos sem o saber.
Ao retirar aquela venda não só iluminou o Templo; também fomos convidados a iniciar o difícil caminho da compreensão.
Porque a pior cegueira não é aquela que não consegue ver, mas aquela que se recusa a olhar além de si mesmo.
Nos nossos tempos, marcados por polarização, redes sociais e julgamentos precipitados, este ensino adquire uma relevância extraordinária.
Vivemos rodeados de informações, mas escassos de entendimento.
Ouvimos respostas antes de fazermos perguntas. Damos uma opinião antes de refletir.
Condenamos antes de entendermos.
Devemos aprender a ouvir com atenção, observar com humildade e julgar com prudência.
Só assim poderemos nos tornar verdadeiros construtores de harmonia.
Que cada vez que contemplarmos um irmão, um adversário ou um estranho, possamos lembrar que nossos olhos só percebem a superfície.
A essência permanece escondida para aqueles que não estão dispostos a olhar com o coração e com a razão iluminada pela Luz.
A intolerância começa quando deixamos de entender, mas a fraternidade nasce no momento em que aprendemos a enxergar além das aparências.
Que o Grande Arquiteto do Universo nos conceda a sabedoria para distinguir entre olhar e compreender, e a força para construir um mundo onde a Luz do entendimento prevaleça sobre as sombras da ignorância.
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