24 de junho
Dia Internacional da Maçonaria Especulativa.
24 de junho constitui a data fundacional e o eixo simbólico da maçonaria especulativa, ligando o nascimento da organização institucional moderna com antiquíssimos mistérios astronômicos e cosmológicos.
A historiografia oficial registra essa efeméride em 1717 quando foi fundada em Londres a primeira Grande Logia do mundo.
No entanto, a escolha deste momento preciso não foi um fato casual nem meramente administrativo; representa a continuidade de uma herança hermética e operacional que liga a ordem arquitetônica terrestre à ordem cósmica.
A propósito deste marco institucional, a origem da maçonaria moderna foi formalmente consolidada quando quatro logias operacionais se reuniram na taberna Goose and Gridiron.
Ao proclamar-se como a Grande Loja de Londres e Westminster, os fundadores escolheram o feriado de São João Batista para instaurar sua nova estrutura administrativa.
Essa determinação marca a transição formal entre as antigas guildas de construtores de catedrais e a fraternidade de pensadores especulativos.
Por isso, para compreender o verdadeiro pano de fundo de tal escolha, é preciso elevar os olhos para o firmamento e observar o analema solar.
O analema é a curva em forma de oito alongado que desenha o sol no cofre celeste se for observado todos os dias do ano à mesma hora.
Inscritos na mecânica celeste, as extremidades desta curva correspondem exatamente aos pontos de inflexão luminosa.
O extremo superior representa o solstício de verão, correspondente ao mês de junho, enquanto o extremo inferior representa o solstício de inverno correspondente ao mês de dezembro.
Da perspectiva da arte construtiva, o analema solar funciona como o testemunho geométrico da jornada estelar.
24 de junho marca o momento em que o sol
parece parar em seu declínio norte
antes de iniciar sua descida.
Este fenômeno astronômico é replicado simbolicamente pelas logias, na sua qualidade de reflexo do cosmos, através de diferentes práticas rituais.
A fim de rastrear as raízes desta correspondência, é necessário salientar que, para as antigas guildas, o guardião do tempo e das transições era o deus bifronte Jano, o senhor das duas portas.
Sua etimologia compartilha raiz com Juno, divindade ligada à renovação primavera e origem do nome do mês de junho.
Esta divindade possuía dois rostos: um olhava para o passado, representando o ciclo que decresce e outro para o futuro, representando o ciclo que ascende.
Posteriormente, quando estes símbolos se adaptaram ao contexto da Europa medieval, a figura do deus bifronte desdobrou naturalmente nos dois João.
Por um lado, São João Batista atua como guardião do solstício de verão, ponto onde a luz atinge seu esplendor máximo e inicia sua descida.
Por outro lado, São João Evangelista funge como guardião do solstício de inverno, onde a escuridão é máxima, mas a luz começa a renascer.
Além dos antecedentes históricos e mitológicos, os grandes exégetas da literatura maçônica estudaram aprofundadamente esta relação.
Na sua abordagem ritualística, o autor francês Jean-Marie Ragon salienta que as festividades da ordem são pura alegorias astronômicas.
Para Ragon, honrar João Batista é celebrar o amadurecimento da natureza e o zênite do astro rei, despojando a data de dogmatismos para lhe devolver o seu senso cósmico primitivo.
Por seu lado, Albert Pike, no seu tratado Morales e Dogma, examina as logias de São João, salientando que estes santos padroeiros são símbolos das duas grandes verdades da natureza.
Essas verdades são a regeneração através da água, representada pelo Batista, e a iluminação espiritual pelo Verbo, personificada pelo Evangelista.
Pike postula assim que os membros adoram o Grande Arquiteto do Universo através das leis imutáveis da criação visível.
Em sintonia com estas interpretações, Oswald Wirth analisa o tema desde o simbolismo do construtor.
Wirth associa o 24 de junho com o trabalho ao meio-dia, o emprego do prumo na sua verticalidade máxima e a maturidade intelectual do iniciado que aprendeu a dominar as suas paixões para fazer a pedra bruta.
Finalmente, René Guénon traz uma análise metafísica mais aprofundada explicando que as festas dos dois João correspondem às portas solsticiais.
Estas são a porta dos homens, identificada como Janua Hominum em Câncer, e a porta dos deuses, chamada Janua Deorum em Capricórnio.
O autor cita o texto bíblico para validar a astronomia lembrando a passagem que aponta para que ele cresça e eu diminua.
Esta frase reflete exatamente
o comportamento do sol no céu
após 24 de junho.
Como consequência de tudo o que precede, 24 de junho não deve ser entendido como uma simples efeméride do calendário maçônico.
É, na verdade, um lembrete de que os trabalhos da ordem são regidos pelos ciclos da luz e pela eterna busca da verdade.
Esta data convida o iniciado de forma constante a sintonizar o seu templo interior com a harmonia do
macrocosmo.
E sob estas premissas, no cofre celeste da loja universal, ressoa com força a eterna questão ritual.
¿De dónde venís, mi Q.·.H.·.?
De uma loja de San Juan.
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