Assim Falou Zaratustra ... (Por: Anne Silva)


Assim Falou Zaratustra: 
a obra de Nietzsche 
que explica o Eterno Retorno e o Amor Fati

Assim Falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra), de Friedrich Nietzsche, um dos filósofos modernos mais influentes, constrói um corpo teórico repleto de imagens, aforismos e um retorno à tragédia para formar uma espécie de “ética da existência”. ...


Assim Falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra), de Friedrich Nietzsche, um dos filósofos modernos mais influentes, constrói um corpo teórico repleto de imagens, aforismos e um retorno à tragédia para formar uma espécie de “ética da existência”.

Publicada entre 1883 e 1885, Assim Falou Zaratustra é a obra mais literária de Nietzsche, e, diferente de seus livros anteriores, que são estruturados em forma de aforismas, é quase uma narrativa. 

Alguns dizem que é um “evangelho invertido”, protagonizado por Zaratustra, um sábio que desce da montanha para ensinar uma nova visão sobre a vida, a moral e o ser humano em forma de parábolas, quase como no texto bíblico.

A obra se divide em quatro partes, cada uma com encontros e reflexões do “sábio”, mas de forma não linear.

Ao contrário da filosofia clássica, a intenção de Nietzsche é inaugurar uma ética que ele considera “afirmativa”, baseada no seu próprio conceito de “moral”, inaugurado com o “eterno retorno” nietzschiano e o amor fati (traduzido como amor ao destino), que, juntos, levam à redenção, uma superação imanente do que Nietzsche condena como “má consciência” e ódio ao passado.

O homem nietzschiano é aquele que diz “assim eu quis” e se recusa a renegar a sua vida, o seu presente e passado, inaugurando uma nova (e própria) linguagem de valor.

Depois de dez anos isolado, em que buscou sabedoria, Zaratustra decide voltar aos humanos. Ele sente que amadureceu e que agora deve “derrubar falsos valores” e anunciar novos. 

Critica a moral vigente na sua época: uma moral cristã marcada pela busca de recompensas celestiais, pela ideia (e o medo) do pecado e pelos valores modernos e falsamente progressivos de um igualitarismo incondicionado, do “progresso cego” do que se chama de civilização e da mercantilização da vida que vem com as novas formas sociais de organização econômica.

É no terceiro livro de Zaratustra que Nietzsche apresenta a ideia do Eterno Retorno, então, como um experimento.

Ele convida o leitor a imaginar que cada momento da sua vida se repete infinitamente, em todos os atos e correlatos. 

A pergunta de Nietzsche, então, é simples: você gostaria de viver essa vida por toda a eternidade?

A hipótese funciona como uma dramatização do conflito moral de um indivíduo sobre a condução da sua própria vida. 

O Eterno Retorno é uma espécie de ciclo cosmológico ou teste existencial cujo objetivo é esquecer por um momento a metafísica e forçar o sujeito a confrontar o sentido dos seus próprios atos, da forma como conduz sua existência de maneira consciente. 

Daí a ideia de uma “estética da existência”, que depois será apropriada pelos estudos foucaultianos na sua relação com a epimeleia heautou dos Antigos.

Imaginar que a sua vida vai se repetir eternamente é um filtro ético para evitar a negação que às vezes um indivíduo faz de “partes” da sua existência, uma fuga (embora não haja, de fato, uma maneira de escapar) momentânea do vivido real e do presente.

Nietzsche quer demonstrar que existe um mérito até mesmo no sofrimento e, então, apresenta o amor fati: amor ao destino, citado em outros textos do filósofo, como Ecce Homo (1908) e A Gaia Ciência (1882).

Aceitar e amar seu destino, em Assim Falou Zaratustra, trata-se de desejar sem reservas que tudo retorne, que tudo seja repetido, não como resignação ou passividade em relação à vida, mas como uma ressignificação ativa daquilo que se vive, uma “aceitação criadora”. 

Nietzsche quer dizer que transformar o destino em ato criacional de quem o vive é dizer: “assim eu quis”, uma coragem ativa que representa uma relação com outro famoso conceito da filosofia nietzscheana, a “vontade de poder”.

A vontade de poder é o impulso criacional, o desejo de desejar e de gozar; o princípio psicológico de dar significado e originar algo novo no mundo a partir de si.

Em Assim Falou Zaratustra, portanto, a redenção não é uma salvação religiosa nem uma nova moral filosófica, mas uma libertação que só pode vir de dentro, do rompimento com o ressentimento que mantém o sujeito vinculado ao ódio de suas circunstâncias e do seu passado.

Esse movimento tem três consequências práticas:

Fim da vingança: 
o indivíduo redimido já não cultiva a vontade de reparar ou anular o passado; reconhece o peso do ocorrido e o assume.

Superação da má-consciência: 
a culpa que corrói retroativamente perde seu poder quando tudo é afirmado; a redenção implica a reconciliação com a própria história.

Nascença de novo avaliador: 
o sujeito que alcança essa afirmação torna-se apto a criar novos valores (o lugar social do Übermensch).

Depois de percorrer cidades, encontrar discípulos, perder discípulos, enfrentar animais simbólicos e dialogar com sua própria sombra, o Zaratustra da obra nietzschiana se reconcilia com o Eterno Retorno, e a narrativa se conclui com sua ida para um estágio “além do humano”, já pronto para encontrar seus “filhos espirituais”.

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