Lembre-se do seu Criador !

 

Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes dos dias maus e dos anos que virão, quando você dirá: "Não tenho prazer nesses."
Eclesiastes 12:1 (Reina-Valera 1960)

Existem passagens nas Escrituras Sagradas que parecem desafiar o tempo. 

Elas foram escritas há séculos, mas continuam a falar com surpreendente clareza para o homem contemporâneo. 

O Eclesiastes 12:1 é uma delas. 

À primeira vista, pode parecer uma simples exortação direcionada à juventude, mas uma leitura mais profunda revela que sua verdadeira mensagem transcende a idade. 

O sábio não está apenas falando sobre a juventude do corpo, mas sobre aquele estado interior em que o ser humano mantém a capacidade de aprender, de se corrigir e de direcionar sua vida para o que realmente tem valor.

A expressão "Lembre-se do seu Criador" contém uma profundidade extraordinária. 

Lembre-se não apenas de trazer algo à memória; envolve retornar à origem, reconhecer o princípio que dá significado à nossa existência e manter vivo o conhecimento de que cada trabalho humano tem um propósito superior. 

É uma convite para não se perder entre as distrações do mundo, entre orgulho, ambição ou a incessante busca por aquilo que, mais cedo ou mais tarde, acabará desaparecendo.

Do ponto de vista masonico, este versículo encontra uma convergência natural com os princípios da Ordem. 

A Masoneria não pretende substituir nenhuma religião ou impor uma maneira específica de compreender Deus. 

Em vez disso, convida o homem livre e bem-educado a reconhecer a existência do Grande Arquiteto do Universo e a iniciar um trabalho constante em si mesmo. 

Essa obra interior é a essência do nosso caminho iniciatório. Não se trata apenas de adquirir conhecimento simbólico, mas de construir um caráter sólido, uma consciência reta e uma vida guiada pela virtude.

É exatamente o Mestre Mássico que alcança a compreensão mais completa desta doutrina. 

Após viajar pelos primeiros graus, se descobre que a verdadeira construção nunca foi o templo material, mas o templo interior. 

A pedra bruta que se recebe no início do seu percurso representa as próprias imperfeições, e o trabalho paciente de esculpir a mesma simboliza a constante transformação do seu caráter. 

Sob esta luz, as palavras de Eclesiastes adquirem um significado ainda mais profundo: lembrar do Criador significa nunca esquecer a razão pela qual se assumiu esta obra de perfeição moral e espiritual.

Há também um simbolismo que muitas vezes passa despercebido. 

Os versículos que seguem descrevem o declínio da velhice através de imagens de beleza extraordinária: os guardiões tremulantes, os homens fortes e fortes, os dentes que se esmagam, as janelas que perdem sua clareza e a corrente de prata que finalmente se quebra. 

Além de descrever a inevitável passagem do tempo, essas figuras nos lembram que tudo o que um homem normalmente coloca sua confiança em — força, beleza, riqueza, prestígio ou poder — é essencialmente transitoria. 

A única coisa que permanece é o que alcançamos ao construir dentro de nós.

A marmorez tem ensinado esta verdade há séculos através de linguagem simbólica. 

Cada ferramenta do construtor, cada coluna, cada pedra e cada cerimônia apontam para a mesma realidade: o verdadeiro templo é o ser humano. 

Nenhuma reconhecimento externo pode substituir a paz que uma consciência reta produz, nem a riqueza capaz de igualar a valorização de uma vida dedicada ao serviço, ao conhecimento e à prática da virtude. 

Este é um dos grandes segredos da tradição iniciática: entender que a transformação do mundo necessariamente começa com a transformação de si mesmo.

Talvez por esta razão, este versículo tem uma relevância extraordinária em nossos dias. 

Vivemos numa era em que o conhecimento está à mão, mas a sabedoria parece cada vez mais escassa. 

A tecnologia responde a perguntas em poucos segundos, embora nenhuma inteligência artificial possa responder ao que realmente importa: por que estamos aqui? 

Esta resposta só pode surgir de trabalho interior, reflexão e vontade de viver com propósito. 

O Eclesiaste nos lembra que o progresso material é sem sentido quando esquecemos de cultivar o espírito.

Muitos dos grandes conhecimentos da humanidade sobreviveram porque foram transmitidos através de símbolos, parábolas e ensinamentos que forçam o leitor a refletir. 

Eles não oferecem respostas imediatas; eles convidam uma busca pessoal. 

Esta tem sido a natureza da tradição maçônica. 

O símbolo nunca impõe uma verdade, mas abre uma porta para cada iniciador descobrir por si mesmo o que precisa entender. 

Talvez por esta razão, estas doutrinas permaneceram vivas por gerações. 

Os tempos mudam, as sociedades mudam e os modos de pensar mudam, mas a natureza humana continua a enfrentar os mesmos desafios: orgulho, medo, vaidade, ignorância e a constante busca por significado.

Poucas pessoas param para contemplar a profundidade de um versículo como este. 

Muitos o leem e continuam em seu caminho; outros o memorizam sem permitir que transforme suas vidas. 

No entanto, aqueles que decidem meditar sobre isso descobrem que a sua atitude permanece inalterada, pois a vida completa enquanto ainda temos a oportunidade de construir algo que transcende a nossa existência.

Como Mestres Maçôns, esta reflexão nos lembra que o nosso trabalho não é completo quando fechamos a Loja. 

Continua em um modo que nos educa, no modo que praticamos a nossa profissão, no modo que tratamos os nossos semelhantes e no modo que nos deixamos para a sociedade. 

O mundo precisa de homens capazes de construir pontes onde outros constroem muros, de sementes de harmonia onde há divisão, e de agir com integridade mesmo quando ninguém está a observar.

Talvez esse seja o verdadeiro significado de "Lembre-se do seu Criador". 

Não se trata apenas de direcionar a vista para cima, mas de lembrar, todos os dias, o compromisso de viver de acordo com os princípios que tornam o homem uma melhor versão de si mesmo. 

Quando esse lembrete permanece vivo, o tempo deixa de ser um inimigo e se torna o melhor professor. 

Então entendemos que a verdadeira imortalidade não é sobre prolongar a vida, mas sobre deixar uma marca 
de virtude, sabedoria e irmandade 
nos que continuam o trabalho depois de nós.

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