Falar de lesa humanidade é entrar em um dos conceitos mais dolorosos que o direito e a consciência universal já conceberam.
Não se trata apenas dos grandes genocídios, das guerras ou dos crimes que marcaram a história com sangue.
A lesa humanidade representa toda ação sistemática que atenta contra a dignidade essencial do ser humano, essa faísca de Luz que a Maçonaria reconhece como sagrada e inviolável.
No entanto,
a época atual
convida-nos a alargar a reflexão.
Hoje, os atentados contra a humanidade nem sempre são apresentados com uniformes militares ou exércitos marchando sobre cidades.
Frequentemente disfarçam-se de indiferença, intolerância, corrupção, desigualdade extrema, manipulação da verdade e desprezo diário para com aqueles que pensam diferente.
Eles manifestam-se
quando a fome convive com a abundância,
quando a educação se torna privilégio e não direito, quando a violência pretende substituir o diálogo e
quando o ser humano deixa de olhar o outro
como seu semelhante.
Para o maçom, cada homem e cada mulher são pedras destinadas a formar o grande templo da humanidade.
Nenhuma pedra pode ser desprezada sem enfraquecer toda a estrutura.
Quando uma pessoa é humilhada pela sua origem, sua condição económica, suas ideias ou sua cultura, não só um indivíduo é ferido; uma parte do edifício simbólico que todos nós somos chamados a construir é fracturada.
A filosofia maçônica ensina que a verdadeira liberdade nunca pode ser edificada sobre a opressão,
que a igualdade não consiste em uniformizar os homens, mas em reconhecer a sua dignidade intrínseca,
e que a fraternidade exige algo
mais profundo do que a simples convivência:
exige solidariedade ativa, justiça
e compromisso permanente com bem-estar comum.
Nas nossas lojas costumamos falar sobre desbastar a pedra bruta.
Esse trabalho interior não é um exercício de isolamento espiritual, mas uma preparação para melhor servir a sociedade.
De pouco adiantaria dominar os símbolos,
memorizar rituais ou conhecer a história da Ordem
se, ao sair do Templo,
permanecermos indiferentes ao sofrimento humano.
O cinzel que não quebra o egoísmo acaba perdendo a lâmina.
Vivemos em uma era onde a tecnologia aproxima continentes, mas muitas vezes afasta corações.
As redes sociais permitem comunicar ideias em segundos, mas também espalham ódio, desinformação e divisão com uma velocidade nunca vista antes.
Neste cenário ...
o maçom é chamado a ser um construtor de pontes e não de muralhas;
um defensor da verdade antes de um repetidor de preconceitos;
um semeador de concórdia no meio da polarização.
A lesa humanidade começa muito antes de um tribunal internacional proferir uma sentença.
Começa quando uma sociedade
normaliza a injustiça,
quando a dor dos outros deixa de nos comover e quando o silêncio
se torna cúmplice da opressão.
O inimigo mais perigoso nem sempre é aquele que empunha uma arma, mas aquele que renunciou à sua consciência.
A Maçonaria
não pode ficar
indiferente a esses desafios.
Sua missão histórica foi iluminar a razão, defender a liberdade de pensamento e lembrar que o progresso material não tem valor se não for acompanhado de um progresso moral.
A construção do Templo Universal
exige homens e mulheres capazes
de transformar o seu ambiente através
do exemplo, tolerância e busca incansável pela verdade.
Cada geração enfrenta seus próprios testes.
A nossa não é apenas denunciar os grandes crimes que comovem o mundo, mas também impedir que a indiferença, o fanatismo e a desumanização se tornem costumes.
Onde um ser humano
perde a sua dignidade,
toda a humanidade é diminuída.
Que cada um de nós leve novamente o malete e o cinzel, não para destruir, mas para modelar um caráter firme, justo e compassivo.
Porque o verdadeiro maçom
entende que a pior forma
de lesa humanidade
nem sempre é aquela que destrói corpos, mas aquela que apaga a consciência.
E enquanto houver
um coração disposto a defender
a dignidade do homem,
a Luz continuará vencendo as trevas.
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