FERNANDO... UMA PESSOA!

 


Os 10 maiores poemas de Fernando Pessoa

Não sei quanto a você, mas costumo ficar com uma ponta de indignação quando me deparo 

com uma eleição dos “maiores” ou “melhores” de qualquer coisa. Como admitir que um filme, um livro, uma canção que mudou a minha vida seja preterida em favor de outra? É difícil de demarcar a fronteira entre as preferências individuais e o juízo público. 

Fazer escolhas é angustiante porque implica, não propriamente incluir um número determinado de itens em uma lista, mas excluir o universo praticamente infinito das possibilidades. 

Sem as listas, tudo é mais leve e possível. 

Então por que perguntar a 16 experientes leitores de Fernando Pessoa, entre pesquisadores e escritores, quais são os seus 10 maiores poemas?

Certamente porque, além de indignarem, as listas atraem. Professores universitários e pesquisadores passam tantas horas analisando e refletindo sobre textos que, a certa altura, correm o risco de perdê-los de vista ou, simplesmente, de enjoar deles. O pecado do excesso não é menor do que o da falta. As listas têm a magia de resgatar o amador que cada um de nós nunca deveria ter abandonado, por ser um modo leve e embasado, embora sem a necessidade do famigerado aparato crítico, de reaproximação com o que nos move.

Listas nem sempre são fáceis de entender. Em muitos casos é, sim, demonstrável que uma obra de arte é mais bem realizada ou mais influente do que outra, mas em muitos outros afirmar isso é arbitrário e até leviano. Julgamentos só se estabelecem em função de valores. E as listas se tornam tanto mais complexas quanto mais variados forem os critérios adotados em sua formulação. Por vezes, o grau de perfeição, de acabamento de um texto, é mais aferível em poemas curtos e metrificados, com caráter aforismático, do que em textos muito longos. Noutras, é justamente o discurso torrencial ou enumerativo que mais evidencia a amplitude de perspectiva. Há escolhas que são previsíveis, há aquelas surpreendentes e outras verdadeiramente excêntricas. Listas podem ser úteis e divertidas, podem revelar tanto sobre o que selecionam quanto sobre quem seleciona, podem nos servir como guias ou simplesmente despertar a curiosidade. As que mais me estimulam são justamente as que conseguem equacionar, sem pesar demais para um dos lados, a visão histórica e o gosto pessoal.

Vivemos fazendo listas porque vivemos fazendo escolhas. Quando renunciamos a elas, deixamos que as façam por nós. 

Um professor se depara com essa tarefa angustiante ao estabelecer temas para as suas aulas. 

Um escritor, ao intitular um romance, um poema, ao nomear um lugar ou uma personagem. 

Um cozinheiro, ao formular o menu do restaurante em que trabalha. 

Os noivos, ao fazer a lista de convidados para a festa de casamento e, algum tempo depois, ao escolher o nome de seus filhos. 

Um viajante, ao traçar o itinerário de férias. Um governante, ao administrar o erário público. 

Um eleitor… 

Melhor será dizer que vivemos de fazer escolhas. São elas que nos constroem.

Uma lista talvez seja como um álbum de fotografias. Quando observamos as fotografias de uma viagem recente, é natural que lamentemos a ausência de certos lugares e encontros. 

A experiência gravada na memória é mais viva do que o registro fotográfico. 

Passados alguns anos, no entanto, serão aquelas imagens o gatilho para recuperar acontecimentos que haviam se apagado. O que parecia restringir a experiência se torna uma preciosa oportunidade para reaver o que se perdera.

Para um leitor assíduo de Fernando Pessoa, essas listas não deixarão de ser injustas e criminosamente incompletas, mas, mesmo assim, não é difícil presumir que esse leitor se renda à curiosidade de conhecer o gosto, o juízo de seus pares. 

E ele o fará, por vezes, com ares de surpresa, noutras correndo para reler aquele poema ao qual nunca deu a devida atenção, ou pesquisar, com embaraço, aquele outro que sequer conhecia. Em boa parte das vezes, ele percorrerá as listas disciplinadamente, buscando aprender com elas. 

Mas sempre haverá quem o faça com um sorriso de canto de boca – isso até que esse, porventura, irônico leitor seja convidado a fazer a sua própria lista; depois das hesitações naturais e das angustiantes exclusões que essa tarefa exige, é provável que ele deixe de ser tão rigoroso com as listas alheias.

Não convém esquecer que julgamentos são historicizáveis. O que pensamos, hoje, a respeito de um texto tem a ver com as nossas demandas de leitura e com a sua capacidade de dialogar conosco, de lançar luz sobre o nosso mundo. 

O Shakespeare isabelino não é o mesmo autor recuperado pelo romantismo, assim como se transformou em outro ao ganhar as telas de cinema e de televisão. 

Num contexto bélico, de crise política, epidêmica ou numa época socialmente convulsionada, é natural que façamos escolhas que nos ofereçam algum tipo de conforto ou compensação. Isso para não falar da história familiar ou pessoal, das conquistas e das perdas, da oscilação dos humores, das paixões, dos incômodos, das obsessões e dos temperamentos – dos fatores subjetivos que são inerentes ao julgamento. 

O que impediria, ainda, que esses mesmos 16 entrevistados, passados alguns anos, meses ou somente dias, formulassem listas diferentes daquelas que fizeram? Não foram poucos os que, ao me enviarem as suas listas, as relativizassem desse modo.

Embora não a tenha publicado, eu não resisti a fazer a minha própria lista, e confesso que ela foi se transformando segundo um padrão: dos dez poemas, sete permaneciam – os três primeiros, inclusive, na mesma sequência –, mas ela apresentava três vagas flexíveis, nas quais incluí e das quais excluí poemas que certamente fariam parte de uma lista com 20 textos. Se eu pedisse que me enviassem uma lista com 20 poemas, seriam dez injustiçados a menos, mas a brincadeira teria também menos graça. Quanto mais seletivas, mais interessantes são as listas.

Sem considerar a prosa e o teatro, Fernando Pessoa são, pelo menos, quatro poetas geniais. 

Isso não o torna imune a lugares-comuns. O poema mais votado é, por muitos, presumível, e talvez haja uma meia dúzia de outros poemas que dominariam as apostas, mas imagino que as listas dos “dez mais” da maior parte dos grandes poetas tendam a gerar mais repetições do que as de Pessoa. 

Se pensarmos que, se cada um dos 16 jurados votasse em dez poemas diferentes dos eleitos pelos demais, teríamos 160 poemas ao todo, chama a atenção que, excluindo-se as repetições, estas listas somem nada menos do que 80 poemas diferentes. Não conheço outro poeta que tenha equacionado com a mesma excelência diversidade e qualidade.

Pessoa, que, aliás, foi obcecado por listas, escreveu alguns conjuntos de poemas que tanto podem ser encarados como livros quanto como um único poema. 

Não é difícil imaginar que “O guardador de rebanhos” e “Mensagem”, caso pudessem ser votados, apareceriam na maior parte das listas, e isso despertaria menor interesse do que indicar um ou mais poemas específicos desses conjuntos. 

Apenas devido à presunção de sua grande reincidência, orientei os entrevistados a não selecionarem obras dessa espécie, e sim poemas específicos desses conjuntos, se fosse o caso.

Com as listas prontas, tive a ideia de formular a lista das listas, também por diversão. 

Como fazer isso? Escrevo este texto durante as Olimpíadas, cuja atmosfera certamente influenciou esta iniciativa. Sempre achei injusto o modo como o comitê olímpico internacional classifica os países nos jogos, privilegiando demasiadamente a medalha de ouro: uma determinada república sem qualquer representatividade esportiva, com um único superatleta que passou a vida treinando em outro país ou, então, representada por um atleta importado de outro país, obtém uma medalha de ouro, a sua única em toda a competição, e isso a deixa mais bem ranqueada do que uma nação com tradição esportiva, com dezenas de medalhas, embora nenhuma delas de ouro. 

Poemas não são como atletas, bem sei, mas para evitar essa disparidade que o deslumbramento pelo primeiro lugar pode gerar, usei um critério simples: pontuar de um a dez os poemas considerando a sua ordem de classificação, recebendo dez pontos o primeiro colocado, nove o segundo e daí por diante, até um ponto para o décimo. 

Acho esse critério mais equitativo. E tomei a liberdade de listar 20, ao invés de dez poemas, para compor essa superlista.

Não fornecerão essas listas um possível cânone pessoano de nossa época? Entre os jurados, há seis portugueses, quatro brasileiros, um moçambicano, um italiano, um francês, um norte-americano, uma polonesa e um colombiano. 

São seis mulheres e dez homens. Se alguém tivesse a ideia de compor um júri para votar os dez maiores textos, digamos, de Clarice Lispector, certamente a desproporção em favor das mulheres seria maior do que essa, mas, embora haja a presença de notáveis pesquisadoras em sua fortuna crítica, o universo pessoano é numericamente masculino. 

Se considerarmos as gerações recobertas pelos entrevistados, há entre eles nascidos em todas as décadas desde os anos trinta até os anos oitenta. Em meio a essa diversidade, o que eles apresentam em comum é serem todos, pesquisadores ou escritores, leitores experientes de Pessoa.

Antes da pandemia, quando eu encontrava por acaso meus alunos e ex-alunos na Feira do Livro da USP e calhava de trocarmos algumas palavras, eu sempre ficava interessado em saber quais livros eles carregavam em suas sacolas. 

Entre envergonhados e orgulhosos de suas aquisições, não é exagero afirmar que oitenta ou mesmo noventa por cento dos livros que adquiriam eram obras teóricas. Em algum momento de minha formação eu também dei mais atenção ao que os críticos diziam do que aos próprios textos literários, talvez por desconfiar que a minha capacidade de leitura estivesse muito defasada com relação à deles. 

Depois de um tempo isso mudou e passei a ter vontade de ler o que os críticos liam, e daí a conhecer também o que eles porventura ainda não tivessem lido. 

Essas listas, vindas desses grandes leitores, talvez estimulem os meus alunos a não supervalorizarem tanto a crítica com relação à literatura; melhor, quem sabe ela os instigue a se tornarem cada vez mais leitores críticos de literatura.


Caio Gagliardi

Professor na FFLCH 

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