Parafraseando Fernando Pessoa - Às Vésperas do Jamais Ir ...

Há um instante, tênue e quase sagrado, em que a alma se demora à beira do que não virá.

É o momento em que o corpo ainda habita o tempo, mas o espírito já pressente a eternidade imóvel do não-ir.

Não é a partida que dói, é o silêncio da viagem que não se cumpre, o eco do passo que não se deu.

Tudo parece suspenso num halo de indecisão luminosa, como se o próprio destino hesitasse entre o gesto e o pensamento.

Estar na véspera do jamais ir é sentir o mundo recolher-se para dentro do olhar, é perceber que o movimento também cansa e que, talvez, o repouso absoluto seja a mais alta forma de travessia.

A alma se vê cercada por um horizonte que não promete nada e, por isso mesmo, contém tudo: o possível, o perdido, o que jamais se sonhou.

É o instante em que o viajante compreende que não há portos, nem terras distantes, apenas a maré interior que o leva e o traz, sem sair do mesmo ponto.

Nessa véspera, o tempo não corre, respira.

O espaço não se mede, medita.
A existência inteira se recolhe num único pensamento:
o de que viver é sempre estar
a caminho de lugar nenhum.

E, paradoxalmente, é nesse lugar nenhum que mora a mais profunda presença.

Tudo o que foi, o que seria,
o que não chegou a ser,
se encontra num só ponto:
a eternidade contida
no instante anterior à partida.

Então o espírito cala, como quem compreende que não há partida sem regresso, nem regresso sem ilusão.

O que fica é o brilho imóvel das coisas que não aconteceram, a serenidade do que não precisa mais acontecer.

A véspera do jamais ir é, talvez, o mais alto cume do ser: onde o desejo cessa e a consciência,
enfim, repousa sobre si mesma,
como um barco ancorado no mar imóvel da eternidade.

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