Escola condiciona, não educa

 

Há um momento preciso em que algo muda dentro de uma criança.
Entra no sistema perguntando "por quê? "e, anos depois, aprendeu a perguntar algo muito mais útil: "Isso entra no exame? ".

Ninguém o ensinou explicitamente a fazer essa troca.

Não houve decreto, nem lição sobre como abandonar a curiosidade.

Aconteceu sozinho, lentamente, através de milhares de pequenos gestos diários, o silêncio que se seguiu a uma pergunta controversa, a nota que premiava a repetição exata, o olhar de aprovação quando alguém não se desviava do roteiro.

Isso é condicionamento, não precisa ser anunciado para funcionar.
A origem do problema da educação não é um acidente.

A escola moderna não nasceu para despertar mentes. Nasceu durante a Revolução Industrial para produzir trabalhadores previsíveis.

O modelo é quase idêntico ao de uma fábrica, entrada a uma hora fixa, tarefas padronizadas, avaliação constante do desempenho, recompensa ao qual se adapta e correção ao que se desvia.

PONTUALIDADE, REPETIÇÃO, OBEDIÊNCIA.

O esquema pedagógico e o esquema comportamental partilham a mesma lógica, ESTÍMULO, RESPOSTA, APROVAÇÃO.
Os sistemas educacionais de massa do século XIX foram explicitamente projetados para formar cidadãos dóceis e mão de obra disciplinada, não pessoas com critério próprio.

O problema não é que o sistema tenha falhado no seu objetivo, mas sim que o cumpriu muito bem, e ninguém teve a coragem de mudar o objetivo.

Michel Foucault observou que as instituições modernas, a escola, a fábrica, o hospital, a prisão compartilham uma arquitetura comum, a disciplina.

No Vigiar e Punir argumentou que o controle mais eficaz não é aquele que bate, mas sim aquele que organiza corpos e comportamentos até que A GENTE APRENDE A SE VIGILAR SÓ.

Não é necessário impor constantemente, basta estruturar o ambiente para que o indivíduo internalize a norma.

O guarda pode sumir porque o preso já está dentro dele.
A escola funciona exatamente assim.

Não precisa punir a criatividade de forma brutal, basta ignorar sistematicamente.

Não precisa proibir o pensamento crítico, basta nunca avaliá-lo.

O aluno aprende, sem que ninguém lhe diga, que tipo de inteligência tem valor e qual não tem.

E ajuste o seu comportamento em conformidade.

O controle mais perfeito é aquele que não é mais visto como controle.
O mais revelador é o que acontece com quem não se encaixa.

O sistema não se interroga, interroga o indivíduo.

A criança que não aprende no ritmo estabelecido não evidencia um problema do método, mas um problema próprio.

Quem se distrai, quem pergunta demais, quem não cabe nos moldes recebe um diagnóstico antes de uma alternativa pedagógica.

Assim, a instituição se protege de sua própria crítica transformando a dissidência em patologia.

Não se recompensa aquele que pensa diferente, mas sim aquele que replica melhor.

Não se mede a compreensão, mas a memória imediata.
Você não cultiva a vocação, você treina a adaptação.

E assim, com paciência, a criatividade vira risco, a dúvida vira erro e a obediência acaba se confundindo com inteligência.

Isso tem consequências que vão além da sala de aula

Uma pessoa treinada para responder corretamente em vez de pensar livremente leva essa lógica consigo para o trabalho, para a política, para a vida.

Não por ser incapaz de pensar, mas porque aprendeu que fazer isso tem custos e que adaptar-se tem recompensas.

O condicionamento não acaba com a educação formal; a educação formal instala-o para a vida inteira.

Aqui convém ser preciso para não cair em críticas românticas, nem toda estrutura é condicionamento, nem toda norma suprime a liberdade.

Uma criança precisa de limites para crescer; uma aula precisa de certa ordem para funcionar.

O problema não é a existência de regras, mas sim o seu objetivo.

As regras que servem a aprendizagem libertam, as que servem a instituição acorrentam.

A diferença é se o sistema existe para o aluno ou o aluno existe para o sistema.
Educar, no seu sentido mais antigo, significa acompanhar o despertar de uma mente.

A palavra latina educere não significa "encher", mas "tirar para fora", extrair o que já está dentro.

Ensinar a pensar antes de ensinar o que pensar.

Mostrar ferramentas antes de impor conclusões.

Confie que uma mente livre pode ir mais longe do que uma mente direcionada.

Um sistema como este não pode ser baseado na uniformidade.

Não pode medir todos com o mesmo pesadelo nem exigir que todos cheguem ao mesmo destino pelo mesmo caminho.

Requer algo que o sistema atual não tem, tolerância real ao erro, respeito genuíno pelo ritmo individual e confiança de que a desordem do pensamento livre produz algo mais valioso do que a ordem do pensamento treinado.

Alguns professores conseguem isso dentro do sistema, apesar do sistema.

São aqueles que entendem que o seu trabalho não é cobrir a agenda, mas abrir uma pergunta que não feche facilmente.

São a excepção que demonstra que outra forma é possível, e também a prova de que o problema não é humano, mas estrutural.

Mas apesar de tanto controle, há uma faísca que o sistema não consegue desligar.

Há sempre algo indomável.

O momento que alguém para de estudar para passar e começa a aprender para entender.

Em que o conhecimento deixa de ser obrigação e se torna busca. Em que pergunta "porquê? "volta, mais madura, mais teimosa.

O sistema pode organizar conteúdo, mas não pode fabricar consciência. Pode avaliar habilidades, mas não pode substituir o pensamento próprio.

E sempre que alguém volta a perguntar o que não deveria perguntar, algo se parte na máquina e algo essencialmente humano volta a respirar.

A escola tal como existe hoje condiciona mais do que educa.

Isso não é inevitável, é uma escolha que se repete sempre que se reforma o currículo sem tocar na lógica de fundo, cada vez que se adiciona uma nova disciplina sem mudar a relação entre quem sabe e quem aprende, sempre que se fala de inovação educacional e tudo continua sendo medido com um número de 1 a 10.

Mudar isso requer mais do que pedagogia...

Requer honestidade sobre o que realmente serve a escola, e a coragem de exigir que sirva para algo melhor.

Júlio César Chaves

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